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A Educação e a Construção da Nacionalidade Brasileira

  • Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
    Paulo Alcantara Gomes
  • 27 de jul.
  • 3 min de leitura

Paulo Alcantara Gomes

Engenheiro Civil

26 de julho de 2026


Há muitos anos, o grande engenheiro português Manuel Rocha contou-me uma experiência que jamais esqueci. Em sua primeira viagem ao Brasil, percorreu Porto Alegre, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Belém. Ao final da viagem, confessou-me que havia se emocionado, pois, para um europeu, acostumado a atravessar fronteiras linguísticas em poucas horas de viagem, era impressionante verificar que, em um país de dimensões continentais  as pessoas falavam a mesma língua.


A observação de Manuel Rocha revela uma característica singular do Brasil. Nossa unidade territorial nunca foi um fato natural. Ela resultou de um longo processo histórico, no qual a língua portuguesa desempenhou um papel decisivo. Entretanto, a língua, por si só, não explica essa unidade. Ela precisou ser transmitida, preservada e enriquecida por instituições capazes de levá-la de uma geração à outra. Entre essas instituições, nenhuma foi mais importante do que a escola.


Essa constatação conduz a uma reflexão mais ampla. O que mantém unida uma nação? Certamente não é apenas a geografia. Tampouco a origem étnica ou a religião. A história oferece inúmeros exemplos de povos que falam a mesma língua e constituem países diferentes, assim como de países que convivem harmoniosamente com diversas línguas e culturas.


As nações são construções históricas. Elas se consolidam quando seus habitantes passam a compartilhar uma memória, instituições, valores e um projeto comum de futuro. Nada disso nasce espontaneamente. Tudo isso é aprendido.


Foi exatamente esse o desafio enfrentado por diversos países. Depois da unificação italiana, em 1861, Massimo d’Azeglio dizia que “fizemos a Itália, agora precisamos fazer os italianos”. A escola teve um papel decisivo para aproximar populações que falavam dialetos diferentes e possuíam fortes identidades regionais.


Na Alemanha, antes mesmo da unificação política, a língua, a cultura e o sistema educacional já contribuíam para formar uma consciência nacional. A própria União Europeia investe hoje em programas educacionais destinados a criar um sentimento de pertencimento europeu, sem eliminar as identidades nacionais de cada país.


O Brasil apresenta uma realidade ainda mais complexa. Somos fruto do encontro entre povos indígenas, portugueses, africanos e sucessivas correntes de imigração provenientes da Europa, do Oriente Médio e da Ásia. Nossa diversidade constitui uma riqueza extraordinária, mas ela, por si só, não produz unidade. É preciso que exista algo capaz de transformar essa pluralidade em um sentimento de pertencimento comum.


É exatamente nesse ponto que a educação assume uma importância estratégica.


Costumamos atribuir à educação a missão de formar profissionais, preparar para o mercado de trabalho ou promover o desenvolvimento econômico. Todas essas funções são indispensáveis. Mas existe uma missão ainda mais profunda: formar cidadãos conscientes de que pertencem a uma mesma comunidade nacional.


Educar para a nacionalidade não significa uniformizar pensamentos nem impor uma interpretação oficial da história. Significa ensinar o respeito às diferenças, valorizar a contribuição de todos os grupos que participaram da formação do Brasil e desenvolver a consciência de que compartilhamos responsabilidades comuns diante do futuro.



Vivemos uma época marcada pela polarização política, pela radicalização e pela fragmentação social. Divergir faz parte da democracia. Transformar adversários em inimigos enfraquece a própria ideia de nação. A escola deve ser um espaço onde se aprende não apenas matemática, ciências ou literatura, mas também convivência, respeito e compromisso com o bem comum.


Como engenheiro, aprendi que nenhuma grande estrutura permanece de pé apenas porque seus materiais são resistentes. Ela permanece porque existe um projeto capaz de integrar todos os seus elementos em um conjunto equilibrado. O mesmo ocorre com as nações. Língua, cultura, instituições, infraestrutura, ciência e economia são componentes importantes, mas a educação é o elemento que lhes dá continuidade e sentido, transmitindo às novas gerações a consciência de pertencer a uma mesma comunidade de destino.


Talvez esse seja um dos maiores desafios do Brasil no século XXI. Mais do que formar profissionais competentes, precisamos formar brasileiros capazes de compreender a história do país, valorizar sua diversidade e construir um projeto comum de futuro. Afinal, uma nacionalidade não é uma herança que se recebe pronta. É uma obra coletiva que cada geração tem a responsabilidade de continuar construindo.



 
 
 

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