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A Nacionalidade Brasileira: uma obra ainda inacabada

  • Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
    Paulo Alcantara Gomes
  • 27 de jul.
  • 2 min de leitura

Paulo Alcantara Gomes

Engenheiro Civil

24 de julho de 2026


Poucos temas são tão importantes para o futuro do Brasil quanto a construção de uma verdadeira identidade nacional. Paradoxalmente, entretanto, trata-se de um assunto raramente discutido. Falamos muito sobre economia, segurança, educação, desigualdade e desenvolvimento, mas pouco refletimos sobre aquilo que nos une como povo.


A nacionalidade não nasce apenas da língua, da religião ou da origem étnica. Se assim fosse, todos os países de língua espanhola constituiriam uma única nação; os países de língua inglesa formariam outra; e a Suíça, com quatro línguas oficiais, jamais teria alcançado sua extraordinária coesão. A história demonstra que uma nação se constrói quando seus cidadãos compartilham uma memória, reconhecem instituições comuns e, sobretudo, desejam construir juntos um futuro.


O Brasil apresenta uma característica singular. Diferentemente de muitos países europeus, não foi formado por um único povo. Nossa identidade resulta do encontro de indígenas, portugueses, africanos e, posteriormente, de milhões de imigrantes vindos da Itália, Alemanha, Japão, Líbano, Espanha, Polônia e de tantas outras partes do mundo. Essa diversidade não constitui uma fragilidade; ao contrário, representa uma de nossas maiores riquezas.


D. Pedro I
D. Pedro I

Entretanto, ainda não conseguimos transformar plenamente essa diversidade em um sentimento compartilhado de pertencimento. Durante muito tempo, a história nacional foi contada de forma parcial, deixando em segundo plano a contribuição decisiva dos povos africanos e indígenas para a formação econômica, cultural e social do país. Reconhecer esse legado não significa dividir a sociedade em grupos rivais, mas compreender que todos participaram da construção do Brasil e que todos são igualmente herdeiros dessa história.


A educação ocupa um lugar central nesse processo. Não apenas porque transmite conhecimentos, mas porque forma cidadãos. Educar para a nacionalidade não significa promover uniformidade de pensamento nem impor uma visão oficial da história. Significa ensinar o respeito às diferenças, valorizar a diversidade cultural brasileira e desenvolver a consciência de que pertencemos a uma mesma comunidade.


Vivemos, infelizmente, um tempo marcado pela radicalização política e pelo crescimento da intolerância. Divergências sempre existiram e continuarão a existir em qualquer democracia madura. O problema surge quando o adversário deixa de ser visto como um compatriota e passa a ser tratado como um inimigo. Nenhuma nação se fortalece quando o ódio substitui o diálogo e quando identidades políticas se sobrepõem à identidade nacional.


O Brasil precisa recuperar a capacidade de construir consensos em torno de objetivos permanentes: uma educação de qualidade, o desenvolvimento científico e tecnológico, a inovação, a redução das desigualdades, o fortalecimento das instituições, uma indústria  forte, uma agricultura cada vez mais pujante, e o crescimento econômico sustentável. Esses são desafios que pertencem a todos os brasileiros, independentemente de suas preferências partidárias.


D. Pedro II
D. Pedro II

Talvez a grande tarefa deste século não seja apenas promover o desenvolvimento do país, mas concluir a construção da nacionalidade brasileira. Essa construção não será realizada por decretos nem por discursos. Ela nascerá da educação, da cultura, da valorização de nossa história e da disposição de reconhecer que, apesar de nossas diferenças, compartilhamos o mesmo destino.


Dessa forma, construir uma nacionalidade é, antes de tudo, construir um projeto comum de futuro. Esse será certamente o maior desafio do Brasil e, ao mesmo tempo, sua maior esperança.



 
 
 

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