A Esperança Não Envelhece
- Paulo Alcantara Gomes

- 20 de jul.
- 4 min de leitura
Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
18 de julho de 2026
Uma querida amiga me desafiou a escrever um artigo sobre pais e avós com mais de sessenta anos. Aceitei imediatamente, mas, ao começar a escrever, entendi que estava seguindo um caminho equivocado e que esta seria uma tarefa difícil. Essa amiga sempre me coloca frente a frente com desafios quase impossíveis de enfrentar.
Sem perceber, passei a falar apenas do passado. Vieram à memória meus pais, meus avós, os almoços de domingo na casa de minha avó, as empadas, os cachorros correndo pelo quintal, os irmãos, os primos, os tios e as tias. Lembrei-me dos Natais, quando o mais importante não eram os presentes, mas a alegria de ver a família reunida. Recordei minha mãe, Eunice, meu pai, meus quatro avós e tantas pessoas que marcaram minha infância.
As lembranças eram boas, muito boas. Mas será que é assim que devemos olhar para as pessoas com mais de sessenta anos? Como se fossem apenas um grande arquivo de recordações? Minha resposta foi um sonoro não.
As lembranças são parte da nossa vida, mas não são a nossa vida. Tenho mais de oitenta anos e continuo trabalhando, escrevendo, estudando, aprendendo e fazendo planos. Ainda sinto a mesma satisfação ao iniciar um novo projeto, enfrentar um problema difícil ou perceber que posso ser útil a alguém.
Esta não é apenas a minha percepção. Olho à minha volta e vejo médicos realizando cirurgias de grande complexidade, professores formando novas gerações, engenheiros projetando obras importantes, pesquisadores produzindo conhecimento, empresários criando novas empresas, escritores publicando livros e artistas encantando o público. Muitos deles já ultrapassaram os sessenta, os setenta e até os oitenta anos. A idade não lhes retirou a capacidade de produzir. Em muitos casos, tornou seu trabalho ainda melhor, porque à competência se somou a experiência.
A sociedade costuma admirar a juventude por sua energia e força física. Faz sentido. Mas frequentemente esquece de valorizar aquilo que somente o tempo é capaz de oferecer: experiência, discernimento, equilíbrio e sabedoria. São qualidades que não surgem de forma instantânea. São construídas ao longo de décadas de trabalho, desafios, erros, acertos e aprendizados.
Vivemos mais do que as gerações anteriores, e isso muda completamente a maneira de encarar essa fase da vida. Os sessenta anos de hoje não têm o mesmo significado que tinham há cinquenta anos. A expectativa de vida aumentou, a medicina avançou, as pessoas permanecem ativas por muito mais tempo e desejam continuar participando da sociedade.
Não queremos ser vistos apenas como pessoas que precisam de cuidados. É claro que, com o passar dos anos, surgem algumas limitações. Elas fazem parte da vida e devem ser enfrentadas com serenidade. Mas uma limitação física não significa incapacidade intelectual nem perda da experiência acumulada ao longo de décadas.
Às vezes percebo que meus filhos, movidos pelo carinho, tentam proteger-me em excesso. Seguram meu braço ao subir uma escada, preocupam-se com minha saúde, recomendam que eu descanse mais e procuram evitar qualquer risco. Reconheço, com gratidão, que tudo isso nasce do amor.
Mas cuidar não pode significar substituir. Quem envelhece continua precisando de liberdade para decidir, trabalhar, criar, viajar, iniciar novos projetos e, até mesmo, cometer pequenos erros. A autonomia é um dos bens mais preciosos que conquistamos ao longo da vida e não deve ser retirada exatamente quando mais aprendemos a valorizá-la.
Também é verdade que adquirimos algumas manias. Contamos histórias para nossos netos que nossos filhos já conhecem, repetimos lembranças e fazemos comparações entre o passado e o presente. Faz parte da idade.
Mas essas manias são apenas a superfície. Por trás delas existe uma pessoa que continua pensando, aprendendo, sonhando e desejando contribuir. Creio que a sociedade precisa compreender melhor essa realidade.
Estamos vivendo uma profunda transformação demográfica. Em poucos anos, o número de brasileiros acima dos sessenta anos será muito maior do que jamais imaginamos. Isso exigirá mudanças na saúde, na previdência, nas cidades, nos transportes e na economia. Mas exigirá, sobretudo, uma mudança de atitude. Precisamos abandonar a ideia de que envelhecer significa sair de cena.
Ao contrário, há pessoas que atingem sua plena maturidade justamente nessa fase da vida. Livres de muitas das pressões da juventude e da ansiedade da carreira, passam a enxergar os problemas com mais equilíbrio, serenidade e sabedoria. Continuam sendo pais, avós e cidadãos, e têm muito a oferecer.
Quando me lembro de meus pais e de meus avós, não sinto apenas saudade, mas uma enorme gratidão. Foram eles que me ensinaram a trabalhar, estudar, enfrentar dificuldades e acreditar que vale a pena olhar para a frente. Hoje percebo que a maior herança que recebi não foram bens materiais ou conquistas profissionais. Foi a lição de que a vida deve ser vivida com coragem e esperança, em qualquer idade.

É por isso que afirmo, sem hesitação, que a vida não termina aos sessenta, aos setenta ou aos oitenta anos. Enquanto houver um livro para escrever, uma viagem para fazer, uma causa justa para defender, um projeto para realizar, uma criança para ensinar, um amigo para abraçar e, principalmente, uma mulher para amar ou um sonho para perseguir, haverá sempre um belo futuro à nossa espera.
Com o tempo, os cabelos embranquecem e os passos tornam-se mais lentos. Entretanto, a esperança não envelhece e, convenhamos, o futuro também pertence a nós.
Por isso, faço um apelo afetuoso aos nossos filhos e netos: deixem-nos viver plenamente nossas vidas, seguindo os caminhos que ainda se apresentam. Não se trata de rejeitar o carinho e os cuidados que nos oferecem, mas de preservar o direito de escolher como viver esta etapa da existência.
Enquanto houver curiosidade para aprender, coragem para recomeçar e amor para compartilhar, haverá futuro. Porque os anos podem marcar o corpo, mas não conseguem impor limites ao espírito.
A esperança não envelhece. E há crepúsculos tão belos que rivalizam com qualquer amanhecer.



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