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A Força Invisível

  • Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
    Paulo Alcantara Gomes
  • 22 de jun.
  • 7 min de leitura

Paulo Alcantara Gomes

Engenheiro Civil

21 de  junho de  2026


Há algumas semanas, durante uma aula do Curso de Mestrado em Estruturas da Escola Politécnica da UFRJ, ocorreu algo que me levou a uma reflexão que ainda hoje me acompanha. O tema da aula era, naturalmente, a engenharia estrutural. Em determinado momento, porém, a conversa desviou-se para as grandes catedrais europeias. Como engenheiro, sempre me fascinou a ousadia daqueles construtores medievais que, sem computadores, sem calculadoras eletrônicas, sem concreto armado e sem os recursos tecnológicos modernos, foram capazes de erguer algumas das mais extraordinárias obras da história da humanidade.


Falávamos das abóbadas, dos arcobotantes, das torres, das fundações e das soluções engenhosas que permitiram que edifícios com mais de oitocentos anos continuassem de pé. Mas, ao final da aula, percebi que a questão mais interessante não era como aquelas catedrais haviam sido construídas. A pergunta verdadeiramente importante era outra: o que levou aqueles homens a construí-las?


Talvez eu deva confessar que minha atenção para esse tema não surgiu por acaso.

Ela foi despertada por uma grande amiga, na verdade uma irmã que a vida me deu, que, apesar de já ter estar quase chegando  aos  sessenta anos, decidiu realizar uma aventura que muitos jovens hesitariam em enfrentar: percorrer o Caminho de Santiago. Ela não apenas tomou a decisão. Ela a levou adiante e caminhou, perseverou e concluiu sua jornada.


É verdade que o Caminho Francês completo, iniciado em Saint-Jean-Pied-de-Port, ultrapassa os 800 quilômetros. E ela percorreu apenas os últimos 100 quilômetros, a partir de Sarria, distância mínima necessária para a obtenção da Compostela. Mas quem já caminhou por aquelas estradas sabe que não existem quilômetros ‘apenas’. Cada passo carrega seu próprio significado. E, para alguém que tem quase sessenta anos, a decisão de partir talvez seja tão admirável quanto a distância percorrida.


Meu queridíssimo irmão Roberto, que viveu na França por vários anos e que também se interessava pelo Caminho de Santiago, falava-me frequentemente da antiga rota parisiense associada à Tour Saint-Jacques. Sempre que o recordo, imagino-o percorrendo aquelas ruas de Paris que ele tanto amava, ou indo trabalhar no Laboratório do Roger Monier, no Instituto Gustave Roussy, o principal centro oncológico da Europa, em Villejuif, ou jantando comigo no Pizza Pino, ou no Chez Clement, nosso último jantar naquela Cidade. Pouco tempo depois ele me deixou aqui sozinho, neste mundo tão difícil.


Tendo acompanhado a experiência vivida por ela, comecei a refletir sobre a extraordinária força interior que levou milhões de pessoas, ao longo de séculos, a enfrentar estradas difíceis, intempéries, cansaço e incertezas para alcançar Santiago de Compostela. Que energia é essa? Que convicção é essa que sustenta homens e mulheres comuns diante de desafios tão grandes?


Foi também por causa dessas reflexões que comecei a me interessar cada vez mais pelas grandes catedrais europeias. O tema cresceu de tal forma que estou atualmente tentando escrever um livro sobre elas. Ao estudar sua história, sua arquitetura e sua engenharia, percebi que as pedras, os vitrais e as estruturas contam apenas parte da história. Existe algo mais profundo por trás dessas obras extraordinárias,uma certa força invisível que mobilizou construtores, peregrinos, artistas, estudiosos e comunidades inteiras durante gerações.


Quanto mais estudo essas catedrais, mais me convenço de que compreender sua construção é também compreender uma das dimensões mais profundas da experiência humana.


A resposta mais imediata parece simples. A fé. Entretanto, quanto mais reflito sobre o tema, mais percebo que essa resposta merece ser aprofundada. As grandes catedrais da Europa não foram apenas obras de engenharia ou manifestações artísticas. Foram a expressão de uma civilização que acreditava que a vida possuía um significado que transcendia o indivíduo. Seus construtores sabiam que dificilmente veriam a conclusão da obra. Ainda assim trabalhavam. Sabiam que estavam construindo para os filhos, para os netos e para pessoas que jamais conheceriam.


Essa mesma força sustentou os milhões de peregrinos que, ao longo dos séculos, caminharam em direção a Santiago de Compostela. Muitos enfrentavam frio, fome, doenças, estradas difíceis e perigos de toda natureza. Continuavam caminhando porque acreditavam que a jornada possuía sentido. Não era apenas uma viagem física. Era também uma viagem interior.


Ao estudar a história das catedrais, comecei a perceber a existência de um fio invisível que atravessa os séculos. Esse fio liga os construtores das grandes catedrais aos peregrinos, mas talvez ligue também muitos dos grandes criadores da humanidade. Naturalmente, é preciso evitar simplificações. Nem todos pensavam da mesma forma, ou professavam a mesma religião. Nem todos compreendiam Deus da mesma maneira. Ainda assim, muitos deles compartilhavam uma característica comum: a convicção de que existe algo maior do que nós mesmos e que vale a pena dedicar a vida a compreender esse mistério.


Michelangelo via sua arte como uma forma de expressar a grandeza da criação. Bernini transformou a fé em mármore, bronze e arquitetura, criando algumas das obras mais impressionantes da cristandade. Caravaggio, apesar de uma vida pessoal marcada por conflitos e contradições, produziu pinturas religiosas de extraordinária intensidade espiritual. Brunelleschi, ao conceber a extraordinária cúpula de Santa Maria del Fiore, demonstrou como a criatividade humana pode unir beleza, engenharia e transcendência numa mesma obra. Galileu acreditava que a natureza podia ser estudada porque obedecia a uma ordem inteligível. Newton procurava descobrir as leis que governavam o universo e dedicou tantos esforços à teologia quanto à física. Einstein, embora distante das religiões tradicionais, falava frequentemente do sentimento de admiração diante da harmonia e da racionalidade do cosmos.


É evidente que não podemos colocar todos esses homens dentro da mesma moldura religiosa. Seria historicamente incorreto. O que podemos afirmar é que todos eles foram movidos por um profundo sentimento de assombro diante da realidade. Cada um procurou responder, à sua maneira, às grandes perguntas da existência. Para alguns, essa busca assumiu uma forma explicitamente religiosa. Para outros, manifestou-se através da ciência, da arte ou da filosofia. Mas a inquietação fundamental era semelhante.


Talvez seja exatamente nesse ponto que fé e ciência se encontram. Não necessariamente nas respostas, mas nas perguntas. Ambas nascem quando o ser humano percebe que existe um mistério diante dele. A ciência procura compreender como o universo funciona. A fé procura compreender seu significado. A ciência busca as leis que governam a realidade. A fé procura responder por que essa realidade existe e qual é o seu sentido último. Não vejo nessas duas atitudes uma contradição inevitável. Vejo, antes, caminhos diferentes que podem dialogar e enriquecer-se mutuamente.


Existe, porém, uma dimensão pessoal que não posso deixar de mencionar. Já tive a oportunidade de visitar muitas dessas catedrais. Durante anos, meu olhar foi principalmente o olhar do engenheiro.


Ao longo da minha carreira participei de alguns projetos de grande porte e enfrentei situações de enorme responsabilidade. Quem trabalha com estruturas sabe que um erro pode ter consequências dramáticas. Quando uma estrutura entra em colapso, não fracassa apenas um cálculo. Vidas humanas podem estar em risco.


Confesso que, em muitos momentos, senti medo. E, nesses momentos, além do estudo, da experiência e da dedicação ao trabalho, o que me restava era a fé.


Quando viajava, admirava as estruturas, as proporções, a inteligência construtiva, a genialidade dos mestres que conseguiram realizar obras tão extraordinárias com recursos aparentemente tão limitados. Via a beleza, a técnica,  a arte e também via a inteligência humana.


Mas algo mudou com o passar do tempo.


Hoje, quando entro numa grande catedral, continuo admirando tudo isso. Continuo maravilhado diante dos vitrais, das esculturas, das abóbadas e dos arcobotantes. Entretanto, percebo outra presença. Vejo a força da fé que tornou tudo aquilo possível. Começo a compreender que aquelas pedras não foram colocadas apenas por habilidade técnica ou por ambição humana. Foram colocadas por homens e mulheres que acreditavam profundamente em algo maior do que eles próprios.


E confesso que, quanto mais observo essas obras, maior se torna minha própria fé.

Não porque elas provem a existência de Deus. A fé não depende de demonstrações matemáticas. Mas porque revelam uma dimensão da experiência humana que me parece difícil de explicar apenas pelos interesses materiais. Elas falam de esperança, de transcendência, da capacidade humana de dedicar gerações inteiras a uma obra cujo sentido ultrapassa a vida individual.


Quando contemplo uma catedral hoje, vejo o trabalho dos homens. Mas vejo também os sinais daquilo que os inspirou,  a marca de uma confiança que atravessou séculos, a busca por algo que está além de nós mesmos. E talvez seja por isso que essas construções continuem emocionando milhões de pessoas tantos séculos depois de concluídas.


Ao final daquela aula na Politécnica da nossa querida UFRJ, compreendi que a questão mais importante não era como as catedrais foram construídas. Era por que foram construídas. E a resposta continua atual. Os homens e mulheres que ergueram aquelas maravilhas acreditavam que algumas obras merecem uma vida inteira de dedicação. Talvez essa seja a verdadeira força invisível. A força que move os peregrinos, os construtores, os professores, os artistas e os cientistas. A força que leva o ser humano a olhar para além de si mesmo e tentar compreender seu lugar no universo.


As fotografias que acompanham este artigo mostram uma catedral muito especial na minha vida: Notre-Dame de Paris. Foi uma das primeiras grandes catedrais que visitei com minha querida Evinha depois de nosso casamento. Ao recordar aqueles momentos, percebo que foi ali que senti outra forma dessa força invisível sobre a qual procurei refletir ao longo destas páginas.


Em cada catedral que visitamos, sempre temos a sensação de que existe algo que nos ultrapassa e, ao mesmo tempo, nos aproxima. A fé, para nós, nunca foi apenas uma ideia ou uma convicção intelectual. Ela é uma presença que nos acompanha pelos caminhos da vida, nas alegrias e nas dificuldades, nos dias luminosos e também nas inevitáveis tempestades.


Como todos os casais, enfrentamos desafios. Mas sempre tivemos a impressão de que existe uma força maior sustentando nossa caminhada. Talvez por isso, mesmo quando surgem as nuvens, continuemos acreditando que o céu permanece azul acima delas.


Ao olhar para trás, depois de tantos anos, compreendo que as catedrais, os peregrinos e os construtores me ensinaram uma lição simples: as grandes obras da vida não são construídas apenas com inteligência, trabalho ou perseverança. Elas também são construídas com amor.


E acima de tudo, com a presença  de Deus.

 
 
 

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