A Física e a Obra de Deus

Atualizado: 22 de set.
Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
10 de agosto de 2026
Uma super amiga resolveu me colocar desafios cada vez maiores sobre a vida, sobre a minha profissão, que sempre foi o meu ideal, e sobre a minha fé. Sou católico e sempre entendi que Deus está em todas as coisas, nos animais, nas pessoas e na natureza. Por isso aceitei o desafio, embora tenha sido extremamente difícil escrever sobre temas que nos fascinam e instigam a nossa mente. Pelo menos tentei, e espero não ter errado muito.
Há poucos dias, ela tinha enviado uma postagem sobre um pequeno besouro da Namíbia que consegue obter água em pleno deserto, aproveitando a umidade disponível no ambiente. Fiquei fascinado, mas também um pouco envergonhado. Estive várias vezes no deserto da Namíbia, caminhei por aquela paisagem extraordinária, contemplei suas areias, suas montanhas e aquela aparente ausência de vida e, em nenhum momento, vi ou ouvi falar daquele pequeno animal e da maneira extraordinária como ele consegue matar a sede. Vi animais estranhos e belíssimos.
É uma demonstração da minha ignorância, mas também uma bela demonstração de que nunca deixamos de ser aprendizes. Lembro de um guia que me falou que houve época em que encontrava seis leões por dia, e, no momento da minha última visita, nos anos 90, levava seis dias para achar um leão. Infelizmente a África carrega muitos problemas como esse nas mais diversas regiões.
O besouro me impressionou muito. Escrevi sobre o “colega” nesse blog. A neblina, as pequenas gotas de água, a superfície do corpo do animal, as propriedades dos materiais que o constituem, a ação da gravidade e a maneira pela qual a água é conduzida até sua boca são fenômenos que podem ser estudados pela ciência. Podemos observar, medir, formular hipóteses, construir modelos e procurar explicar o mecanismo. E devemos fazê-lo, porque essa é justamente uma das grandes maravilhas da ciência: transformar o espanto em conhecimento. Me atrevi e resolvi analisar outro “colega”, o beija- flor. Postarei em breve.
Mas, depois de compreender o mecanismo, uma pergunta permaneceu comigo: como não enxergar uma obra de Deus naquele besouro?
Talvez alguém considere essa pergunta inadequada. Afinal, podemos explicar cientificamente como o besouro consegue aproveitar a umidade do ambiente para obter água, e a ciência continuará investigando a evolução das características que permitiram a esse pequeno animal sobreviver em condições tão adversas.
Tudo isso é verdadeiro e não diminui em absolutamente nada o fenômeno. Para mim, acontece justamente o contrário: a explicação científica não diminui o meu espanto; ela o aumenta. Quanto mais compreendo o mecanismo, mais extraordinária me parece a solução que a natureza encontrou para permitir que um pequeno ser vivo sobreviva em um dos ambientes mais áridos do planeta.
Penso que esse assunto, que pode parecer muito banal, encerra um constatação extraordinária: o universo obedece a leis.
Nós chamamos isso de física. Estudamos a mecânica, a gravitação, as vibrações, a luz, o calor, a eletricidade e tantos outros fenômenos que fazem parte da natureza. Escrevemos equações, fazemos experiências, construímos modelos matemáticos e conseguimos prever, muitas vezes com impressionante precisão, aquilo que irá acontecer. Para nós, isso é ciência. É o trabalho de cientistas, engenheiros, físicos, matemáticos, biólogos.

Entretanto, quanto mais tempo passo olhando para essas coisas, mais me pergunto se não existe alguma coisa além disso.
Não estou dizendo que a física prove a existência de Deus. Não prova. E seria intelectualmente desonesto tentar transformar uma questão de fé numa demonstração científica. A ciência trabalha com aquilo que pode ser observado, medido, experimentado e submetido à razão.
Deus, para quem acredita, pertence a uma dimensão que não pode ser reduzida a uma experiência de laboratório. Mas isso não significa que um físico não possa olhar para o universo e enxergar nele algo que ultrapassa as próprias equações ou seus modelos. Eu acredito em Deus e, quanto mais penso naquilo que a física me ensinou ao longo da vida, mais difícil me parece olhar para a ordem extraordinária do universo e considerá-la apenas um fato sem significado.
Vejamos a mecânica. Uma pedra cai, um corpo lançado ao ar percorre uma trajetória determinada, um planeta gira em torno de uma estrela e uma estrutura construída pelo homem vibra quando submetida a uma força. Fenômenos aparentemente diferentes podem ser descritos por leis matemáticas extremamente precisas. Os engenheiros e físicos, mesmo quando não existiam tais profissões, descobriram essas leis. Não fomos nós que as criamos, e essa distinção me parece fundamental.
Quando Newton encontrou as leis da mecânica e da gravitação, ele não inventou a gravidade, e Maxwell formulou suas equações, mas não criou o eletromagnetismo. Quando Einstein modificou nossa compreensão do espaço, do tempo e da gravitação, não construiu o universo que descreveu. Eles descobriram alguma coisa que já estava lá.
Então me pergunto: por que aquilo que já estava lá possui uma ordem que a nossa inteligência nem sempre consegue descobrir? Vejam quantas perguntas podemos fazer. Por que o universo é ordenado? Por que ele pode ser descrito pela matemática? Por que relações matemáticas concebidas pela inteligência humana conseguem representar, com tamanha precisão, fenômenos que acontecem em lugares e escalas que jamais poderemos experimentar diretamente? Vejam que o CERN, o maior acelerador do mundo, está sempre procurando avançar na nossa busca desenfreada por mais conhecimento.
Somos matéria tentando compreender a própria matéria. Somos parte do universo e, de alguma maneira, conseguimos descobrir algumas das regras segundo as quais o universo funciona. Isso, para mim, já é uma coisa extraordinária.
Há uma beleza especial na física porque ela frequentemente nos mostra que aquilo que parecia complicado pode nascer de princípios extremamente simples. Um movimento, uma oscilação, uma órbita ou uma onda podem esconder uma estrutura matemática de grande simplicidade e, ao mesmo tempo, de enorme beleza. Talvez por isso a física tenha produzido em tantos de nós não apenas conhecimento, mas também assombro. E assombro é uma palavra importante, porque a ciência explica, mas, às vezes, a própria explicação nos conduz a uma pergunta ainda maior.
Quando compreendemos como uma estrela nasce, não eliminamos o nosso encantamento diante dela. Quintana tem uma poesia linda, que merece sempre ser lembrada:
"Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!"
Quando entendemos por que um arco-íris aparece, suas cores não ficam menos bonitas. Quando descobrimos as leis que governam uma onda, não destruímos a beleza do mar. Ao contrário: conhecer o mecanismo pode tornar a beleza ainda maior. E é nesse ponto que a minha fé encontra a minha física.
Eu não vejo Deus como uma explicação para aquilo que ainda não conseguimos explicar. Isso seria colocar Deus nos espaços vazios do nosso conhecimento, e esses espaços diminuem à medida que a ciência avança. Na verdade, vejo de outra maneira.
Deus, para mim, não é uma alternativa à explicação científica, mas aquilo que dá sentido à própria existência de uma realidade que pode ser explicada.
Como já mencionei, a física pode me dizer como um corpo se move. Pode me dizer também como uma estrutura vibra, como uma onda se propaga e como a gravidade atua. Pode construir equações extraordinariamente precisas para descrever esses fenômenos. Mas ela não me diz por que estamos num universo no qual existem corpos, movimentos, ondas, matéria, energia, espaço e tempo. Essa questão é outra e, por incrível que possa parecer, não me parece pequena diante da ciência. Parece-me justamente uma das maiores perguntas que podemos fazer.
Talvez alguém diga que tudo isso simplesmente existe, que o universo é assim porque é assim e que não há necessidade de procurar uma causa além dele. É claro que compreendo essa posição, pois ela é possível e merece respeito. Mas não é a minha. Eu olho para essa extraordinária ordem da natureza e acredito que ela não é fruto do acaso. Acredito que existe uma inteligência criadora por trás dela que, para mim, é Deus.
E o pequeno besouro da Namíbia volta agora. Eu poderia estudar “o colega” apenas como um fenômeno biológico. Poderia procurar compreender as propriedades de sua superfície, a formação das gotas, o movimento da água e todos os fenômenos físicos envolvidos. Poderia, como engenheiro, pensar em como aproveitar aquele princípio para desenvolver materiais ou sistemas capazes de captar água da atmosfera. Tudo isso seria ciência, e uma ciência fascinante.
Mas existe uma diferença entre compreender como algo funciona e perguntar por que existe algo tão extraordinariamente focado na vida.
Para mim, essa diferença não é um problema para a ciência. É justamente o espaço da contemplação. Certamente essa é a diferença entre explicar e contemplar. A ciência explica o mecanismo; o homem contempla aquilo que o mecanismo revela. E uma coisa não precisa destruir a outra. Posso conhecer perfeitamente as leis que governam uma estrutura e ainda assim me maravilhar diante dela. Posso calcular as frequências naturais de uma estrutura vibrando, avaliar tensões e deformações, e prever o comportamento de uma construção, sem que isso me impeça de perceber a beleza existente na própria ordem que esses cálculos revelam. Os arquitetos fazem projetos maravilhosos.
Sempre aprendi que uma estrutura não pode ser apenas bonita; ela precisa encontrar equilíbrio, resistir às forças que atuam sobre ela e responder de maneira adequada às solicitações que recebe.
Quando observo a natureza, encontro uma complexidade que ultrapassa infinitamente aquilo que conseguimos construir. E, muitas vezes, aquilo que nos parece extraordinariamente sofisticado resulta de uma combinação de leis simples que não fomos nós que inventamos.
Não pretendo transformar essa crença em uma equação, nem encontrar uma constante física que contenha Deus. Muito menos pretendo dizer que Newton, Einstein ou qualquer outro físico tenha demonstrado aquilo em que eu acredito.
Estou dizendo outra coisa, mais simples e talvez mais pessoal. Estou afirmando que, depois de uma vida olhando para a natureza através da engenharia e da física, não é possivel deixar de enxergar nela uma beleza que, para mim, aponta para algo maior do que a própria natureza.
Creio que a física é uma das maneiras pelas quais aprendemos a ler o livro da criação. Nós descobrimos suas leis, escrevemos suas equações, fazemos experiências, construímos máquinas e enviamos sondas para outros mundos. Quanto mais aprendemos, mais longe conseguimos chegar. Mas este livro continua sendo maior do que aquilo que conseguimos ler. E talvez essa seja uma das coisas mais bonitas da ciência: ela não precisa destruir o mistério; pode, ao contrário, aprofundá-lo.
Para mim, Deus não está escondido atrás daquilo que ainda não compreendemos. Deus está, de alguma maneira, também na própria ordem que conseguimos compreender. Quando vejo uma estrutura vibrar segundo leis que posso calcular, vejo a engenharia. Quando descubro a equação que descreve aquela vibração, vejo a física. Quando observo um fenômeno da natureza e consigo compreender o mecanismo que o produz, vejo a ciência. Mas, quando percebo a extraordinária harmonia entre a matemática, a matéria, a vida e o comportamento da natureza, vejo algo que me conduz para além delas.
Talvez seja uma boa lição para quem, como eu, passou a vida acreditando que conhece alguma coisa. Quanto mais aprendemos, mais descobrimos aquilo que não sabemos. E talvez seja justamente essa consciência que nos permite continuar aprendendo e, ao mesmo tempo, continuar nos maravilhando.
E então volto à minha pergunta inicial: será que a física é uma obra de Deus? Eu não posso responder isso como uma demonstração científica.
Entretanto, posso responder como homem, como eu acredito: sim, a física é uma obra de Deus. Essa crença, para mim, não diminui diante das equações. Ela, na verdade, cresce, porque, quanto mais profundamente procuro compreender as leis da natureza, mais extraordinário me parece o fato de que exista uma natureza regida por leis tão belas, tão coerentes e tão inteligíveis. E, dessa forma, entre uma pergunta e outra, encontro Deus.



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