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Tito, meu amigo - Mais um que parte

Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
Paulo Alcantara Gomes
10 de ago.
4 min de leitura

Paulo Alcantara Gomes

Engenheiro Civil

09 de agosto de 2026


Três dias depois da morte de Tito Ryff, começo a compreender melhor o tamanho da perda. Talvez seja assim com algumas pessoas: só quando elas partem percebemos plenamente o lugar que ocupavam em nossa vida. Existem pessoas diferentes. Pessoas que passam por nossa existência e deixam lembranças. E existem aquelas que, de alguma maneira, marcam a nossa vida. Tito foi uma dessas pessoas.


Conheci-o quando ele havia retornado recentemente ao Brasil, depois de um longo exílio. Seu pai havia ocupado um importante cargo no governo João Goulart e fora um companheiro leal do presidente. Saiu do Brasil com a família, enfrentou dificuldades e, apesar de tudo, conseguiu educar os filhos. Tito tornou-se um grande economista, um profundo conhecedor dos problemas e das necessidades do desenvolvimento brasileiro. Suas pós-graduações na França, no Reino Unido e nos Estados Unidos certamente contribuíram para o reconhecimento que conquistou como profissional sério, qualificado e competente. Mas isso, hoje, me parece pouco, porque aquilo que mais me impressionou em Tito nunca esteve nos seus títulos, nos cargos que ocupou ou no seu conhecimento de economia. Estava no seu caráter.


Tito era um homem de firmeza, generosidade, princípios e lealdade. Era, como canta Roberto Carlos, “o amigo mais certo nas horas incertas”. Trabalhamos juntos no Sebrae, e com ele aprendi muitas coisas. Aprendi a importância da microempresa para o desenvolvimento, a necessidade de pensarmos uma nova indústria para o Rio de Janeiro e o papel fundamental dos municípios do interior. Aprendi com ele o que era uma região demarcada, a importância da agricultura e da agroindústria, e tantas outras coisas que ajudaram a ampliar a minha própria visão do Brasil. Depois, trabalhamos na Rede de Tecnologia, e aprendi com ele sobre inovação.


Mas tudo isso ainda é muito pouco diante do que realmente aprendi com Tito. Com ele aprendi a importância da generosidade, que é possível conciliar sem abrir mão dos princípios e a manter a voz tranquila, mesmo quando aquilo que temos a dizer é firme. Aprendi que a bondade não é fraqueza e que estender a mão a alguém pode ser uma forma muito mais poderosa de transformar o mundo do que levantar a voz. E aprendi, também, alguma coisa sobre a fé. Nunca soube exatamente qual era a religião de Tito, mas sei que ele tinha fé. Fé em nós, brasileiros. Fé na possibilidade de um país melhor. Fé na paz, mesmo neste mundo tantas vezes tão conturbado.


Tito era um brizolista e, por isso, aprendi muito com ele sobre o trabalhismo. Talvez seja difícil encontrar uma definição política para ele, porque sua ideologia nunca esteve acima de seus princípios de vida. Sua verdadeira ideologia era outra: era a ideologia da bondade, do sorriso fraterno, da mão estendida para quem precisava, da conciliação, de acreditar que, apesar de nossas diferenças, ainda somos capazes de construir alguma coisa juntos.


A última vez que estivemos juntos foi no meu aniversário de 80 anos. Tito e Flávia nos deram a alegria de sua presença. E falar da Flávia é inevitável, porque ela também faz parte dessa história. É uma mulher valente, amorosa e dedicada, que esteve ao lado de Tito durante toda essa caminhada. Por muitos anos, nós quatro — Eva, Flávia, Tito e eu — passamos aqui em casa noites conversando sobre a vida. Com ele também aprendi muito sobre os vinhos franceses. Eram conversas alegres, conversas de pessoas felizes, de bem com a vida, que podiam falar durante horas sobre o Brasil, sobre política, sobre as pessoas, sobre o mundo e, sobretudo, sobre a própria vida.


É curioso pensar que nós quatro jamais divergimos politicamente. Talvez porque também jamais tenhamos convergido. Não precisávamos concordar para sermos amigos. Havia alguma coisa muito maior entre nós: o respeito, a amizade e a certeza de que nenhuma ideologia poderia ser mais importante do que aquilo que nos unia como seres humanos.


Hoje estou muito triste, não apenas porque perdi mais um amigo. Estou triste porque perdi um companheiro de lutas por um Brasil melhor. E talvez essa seja uma das dores mais difíceis que a passagem do tempo nos traz. Aos poucos, aqueles com quem dividimos sonhos, trabalhos, esperanças e lutas vão partindo. E percebemos que somos cada vez menos.


Tito agora se junta aos muitos que preencheram a minha vida. E, às vezes, gosto de imaginar que, qualquer dia desses, voltaremos a nos encontrar: ele, o Armando Clemente, o Gilberto, o Marquinho, o Aluísio, o Roberto, meu irmão, o Hortal, nosso querido padre, e tantos outros que fizeram parte da minha caminhada. Embora tenha plena consciência de que o meu tempo está cada vez mais curto, não sei quando será esse encontro, mas gosto de pensar que, quando acontecer, haverá muito o que conversar. E talvez Tito, com aquele seu jeito tranquilo, generoso e firme, esteja nos esperando para continuar uma daquelas conversas que nunca terminavam.


Até lá, meu amigo, fica a saudade, e fica, sobretudo, a gratidão. Obrigado, Tito, por ter sido meu amigo. Há pessoas que passam pela nossa vida, e há pessoas que ficam.


Você ficou!



 
 
 

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