Este parte, aquele parte, a vida fica tão triste….. Alexandre Duarte, meu amigo, minha referência

Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
11 de setembro de 2026
As últimas semanas têm sido particularmente difíceis. Há poucos dias escrevi sobre a partida de Tito Ryff. Agora, em apenas três dias, partiram Carlos Russo e Alexandre Duarte. Convenhamos que é muita ausência para pouco tempo.

Alexandre entrou na minha vida no dia exato em que fomos aprovados no vestibular da Escola Nacional de Engenharia, em 1963. A euforia tomou conta de todos. Os novos alunos comemoraram juntos e, ao final, os tijucanos voltaram para casa no mesmo ônibus, ainda tomados pela alegria da vitória.
Eu vinha do Colégio Militar e, confesso, era um pouco conservador. Fiquei impressionado com a bagunça de alguns daqueles novos colegas. Entendia, naturalmente, a razão da comemoração, mas talvez não compartilhasse inteiramente do entusiasmo.
No primeiro dia de aula, porém, encontrei novamente Alexandre. E foi aí que começou uma amizade que atravessaria mais de seis décadas. Cursamos juntos Engenharia Civil, seguindo a área de Estruturas. O nosso curso de engenharia deveria entrar para a história. Professores maravilhosos, verdadeiros ícones da Engenharia Nacional, provas dificílimas, preparando de fato profissionais que iriam ajudar a construir a nação.
Depois, como acontece tantas vezes na vida, nossos caminhos profissionais tomaram rumos diferentes. Eu fui para a vida acadêmica, preocupado sobretudo com os conceitos, com a pesquisa e com os aspectos mais avançados da análise estrutural, e tornei-me calculista de estruturas. Acabei fazendo meu doutorado no exterior. Alexandre escolheu outro caminho. Tornou-se um extraordinário empreendedor e construiu uma grande empresa, a Teprem, especializada em patologia das construções.
A Patologia das construções é, em termos simples, a engenharia que procura entender por que uma construção apresenta problemas — fissuras, infiltrações, corrosão, deterioração, deformações ou falhas —, diagnosticar suas causas e encontrar a melhor maneira de corrigi-los e preservar a edificação.
Alexandre fez disso uma grande especialidade. A Teprem realizou mais de 500 projetos no Brasil e no exterior. Mas talvez mais importante do que os números, tenha sido a competência com que ele transformou conhecimento de engenharia em soluções concretas. Com o tempo, voltamos a conversar muito, pois a patologia também nos aproximava, ele identificando problemas e propondo, ou executando soluções, e eu calculando, ambos atarefados com “as árvores que nascem tortas, e que nunca ficam no lugar”, como dizia a Eunice, minha mãe.
Ela sempre brindava o nosso grupo nas madrugadas de estudo. A casa era uma balbúrdia, num cômodo o Roberto, meu irmão, com a turma da Medicina, e no outro, eu, com o pessoal dá Engenharia.
Nos últimos tempos, almoçávamos de vez em quando com o Polillo, nosso querido professor de concreto armado, um homem brilhante que tanto nos ensinou. Eram longos almoços, quase sempre às sextas-feiras. Falávamos de tudo: das nossas vidas, do futuro, das dificuldades, das lembranças e das histórias que fomos acumulando ao longo dos anos. Polillo e eu éramos profundamente católicos. Ele, praticamente sem pecados; eu, um reconhecido pecador. Vocês nem imaginam o número de broncas que levei.
Quando o Pollillo faleceu, eu e o Alexandre combinamos que escreveríamos um livro em homenagem a ele. As circunstâncias não permitiram, mas ainda tenho esse compromisso e vou cumpri-lo, agora em parceria com a Ingrid, e com a Vera, nossa colega e filha do Polillo.
Quanto ao Alexandre, nunca consegui descobrir exatamente onde ele se situava nessa classificação. E talvez nem importasse. Da mesma forma, caminhamos pela política. Nosso problema sempre foi o Brasil, suas profundas desigualdades, sua extraordinária riqueza tão mal utilizada, o futuro dos nossos jovens. Divergíamos, mas o nível da discussão podia ser medido pelo maior de nossos problemas, pois ele era Flamengo, e eu Fluminense.
Eu sabia quem ele era: Generoso. Leal. Companheiro. Sério. Competente. Um profissional de primeira grandeza e, sobretudo, um ser humano em quem se podia confiar.
Quando fui designado reitor da UFRJ, há 32 anos, nossa amizade se tornou ainda mais próxima. Alexandre e eu nos encontrávamos, no mínimo, uma vez por semana.
Ele havia se casado com Ingrid, uma das melhores engenheiras de estruturas que conheço em toda a minha vida profissional. Alexandre e Ingrid eram também professores da FAU/UFRJ. Tinham uma missão particularmente difícil: ensinar cálculo estrutural aos arquitetos (Ana Paula que me perdoe, mas os arquitetos não gostam de calcular estruturas. Tenho enormes discussões sobre o Calatrava, que admiro). Eles fizeram isso muito bem.
A amizade, entretanto, nunca caminha sozinha. Ela cria novas amizades, aproxima famílias, mistura histórias. A filha deles, Erika, formou-se em Arquitetura junto com minha filha, Ana Paula. Assim, de uma maneira quase imperceptível, nossas famílias também foram se tornando amigas.
Nos últimos anos, havia ainda um ritual de que eu gostava particularmente. Aos domingos, encontrávamo-nos na praia: Ingrid, Alexandre, Eva e eu. Caminhávamos e conversávamos. Na verdade, caminhávamos pouco e conversávamos muito. E, acho, para provável desespero da Eva, grande parte da conversa era sobre as estruturas da Barra da Tijuca. Falávamos dos problemas das construções, das causas, dos erros, das dificuldades e, principalmente, das soluções. Porque esse era o Alexandre.
Ele não gostava apenas de apontar problemas. Gostava de encontrar soluções. Essa característica esteve presente também em sua vida profissional. Além de professor e engenheiro extraordinário, foi um grande gestor e exerceu funções de enorme responsabilidade, entre elas a presidência da Companhia Estadual de Gás e do CREA-RJ.
Mas os cargos passam, as empresas, os títulos, tudo passa. . Fica aquilo que uma pessoa deixou nas outras e no pais. Meu último encontro com o Alexandre foi no meu aniversário de 80 anos. Tínhamos, curiosamente, o mesmo oncologista — um excelente médico, a quem devo, em boa medida, estar vivo até hoje. Foi uma das últimas vezes em que estivemos juntos, ele, eu e Tito. Resto eu, mas sei que estou a caminho.
Hoje, Alexandre partiu. E eu perco mais um amigo eterno. Na cerimônia de despedida, Ingrid, com a emoção compreensível daquele momento, disse que, para Alexandre, eu era uma referência na engenharia.
Enganou-se, pois a referência é e sempre será ele. Alexandre foi referência como engenheiro, pela competência e pelo conhecimento, como empreendedor, pela capacidade de transformar conhecimento em trabalho, trabalho em empresa, e em contribuição para o país, como gestor, pelas responsabilidades que assumiu, como professor, formando gerações.
Mas, acima de tudo, foi referência como ser humano. Sempre afetuoso, otimista, leal, companheiro, sério, competente, acima de tudo, de bem com a vida.
É difícil despedir-se de alguém que caminhou conosco durante 63 anos. Mas talvez a melhor maneira de lidar com a morte de um amigo seja lembrar que ela não consegue levar tudo, pois ela pode levar a presença, mas não leva a amizade, as conversas das sextas-feiras, as caminhadas de domingo, as histórias, que nem sempre podem ser contadas, nem leva o que está no coração.
Mas, principalmente, não leva aquilo que Alexandre deixou no Brasil por meio de sua engenharia, de seus alunos, de sua empresa, de seu trabalho e, principalmente, das pessoas que tiveram a felicidade de conhecê-lo.
Eu tive essa felicidade por 63 anos. Portanto, obrigado, meu amigo Alexandre!



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