A África Vencerá a África? (“L’Afrique bat L’Afrique” ou “L’Afrique gagne face à elle-même”)
- Paulo Alcantara Gomes

- 18 de jun.
- 4 min de leitura
Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
17 de Junho de 2026
Ontem, antes do confronto entre as seleções do Senegal e da França, na estreia das duas equipes na Copa do Mundo, um ministro senegalês declarou que “a África acabará vencendo a África”. Convenhamos que é uma manifestação polêmica.
Afinal, o que significa essa afirmação? Seria uma referência às origens africanas de muitos jogadores franceses? Ou uma lembrança dos laços históricos que unem a França a diversas nações africanas desde os tempos coloniais? Ou algo ainda mais profundo, relacionado às grandes migrações humanas que moldaram o mundo moderno?
A verdade é que os povos jamais permaneceram imóveis. A história da humanidade é feita de partidas e chegadas, de portos e estradas, de navios e sonhos, de despedidas e reencontros.
Durante séculos, milhões de europeus deixaram suas terras em busca de oportunidades. Italianos, portugueses, espanhóis, alemães, poloneses e tantos outros atravessaram oceanos e contribuíram para construir países como o Brasil, a Argentina, os Estados Unidos e o Canadá.
Entretanto, vocês já pensaram o que seria do Brasil sem o trabalho escravo dos africanos? E, já no final do século XIX, sem os italianos? Ou, pior, o que seria de São Paulo ou do meu querido Rio Grande do Sul sem eles? (tenho um neto gaúcho e gremista, o Nuno). O que seria de nossas universidades, de nossas indústrias, de nossos vinhedos e de nossas famílias? O fato é que, qualquer que seja a nossa visão da história política de nosso país, grande parte de nosso crescimento se realizou às custas de milhares de famílias que foram separadas, de seres humanos que foram tratados com grande indignidade e injustiça.
E o que seria do Brasil sem os japoneses, cuja dedicação transformou a agricultura e ajudou a construir um extraordinário exemplo de integração cultural? E os engenheiros descendentes de japoneses que tornam São Paulo cada vez mais competitivo?
E sem os sírios e libaneses, cuja presença enriqueceu nosso comércio, nossa culinária e nossa vida social?
Penso nos Valduga e em tantas outras famílias que ajudaram a construir a tradição vinícola brasileira. Lembro-me de conversas com a Ana Paula Valduga, amiga de minha filha Ana Paula, que me fizeram compreender como produzir um grande vinho exige conhecimento, trabalho e perseverança, e muito suor.
Também me lembro de um amigo, que não vejo há anos, o Miguel, engenheiro naval pela USP, PhD em engenharia Naval pela Universidade de Michigan, que me falava das enormes dificuldades de seus pais para construírem do zero uma agricultura familiar sólida e sustentável. Eles viviam em Promissão, no interior de São Paulo, e lá estavam muitos japoneses católicos, sem recursos, sem qualquer conhecimento do português e as vezes vistos como invasores. Já foram 1500 famílias, e hoje não chegam a 130. Foi com muito suor e dedicação que esses nossos irmãos ajudaram ao nosso país, em particular aos Estados de São Paulo e do Paraná, a alcançarem os níveis de desenvolvimento que têm hoje.
Nenhum povo se constrói sozinho. As civilizações florescem quando pessoas diferentes se encontram. Ao mesmo tempo, nenhum povo sobrevive sem preservar sua identidade. Talvez seja exatamente aí que se encontre um dos maiores desafios da Europa contemporânea.

Durante séculos, os europeus navegaram em direção à África, à Ásia e às Américas. Hoje, ao contrário, milhares de africanos atravessam o Mediterrâneo procurando aquilo que tantas gerações de europeus procuraram em outras terras: paz, trabalho, dignidade e esperança.
Não é uma questão simples, nem moral, nem econômica, nem tampouco cultural. Muitos enxergam apenas as consequências, poucos refletem sobre as causas.
Nesse sentido, considero pertinente uma pergunta frequentemente formulada pela primeira-ministra italiana Giorgia Meloni. Independentemente das divergências que suas posições possam suscitar, ela questiona se o mundo está fazendo o suficiente para enfrentar as causas profundas das migrações.
O que estamos fazendo para combater a fome? Para reduzir as guerras? Para enfrentar epidemias? Para criar oportunidades onde hoje existe apenas desesperança? Eu vi e senti a amargura e a tristeza de um campo de refugiados. Posso lhes assegurar que é uma experiência horrível pensar que uma daquelas crianças poderia ser um filho ou um neto.
Talvez a verdadeira solução não esteja apenas na administração das fronteiras, mas na construção de um mundo em que menos pessoas precisem abandonar a terra onde nasceram.
Entretanto, existe outra dimensão dessa história.
Quando um italiano chegou ao Brasil, trouxe consigo um pedaço da Itália. Quando um japonês desembarcou em Santos, trouxe consigo um pedaço do Japão. Quando um libanês aqui chegou, abriu sua primeira loja e plantou também um pedaço do Líbano. Com os africanos foi muito diferente, pois vieram para cá sem opções, como escravos, aos milhares, e por centenas de anos. Há que reconhecer que a população brasileira é hoje, já em maioria,, de afrodescendentes.
Da mesma forma, um africano, ao chegar à Europa, traz consigo um pedaço da África. Entretanto, algo extraordinário acontece ao longo desse difícil caminho: ele passa também a carregar um pedaço da nova terra. Assim, as identidades humanas não se substituem, mas se somam; as raízes permanecem.
Talvez seja por isso que a frase do ministro senegalês tenha me impressionado tanto. Ela não fala apenas de futebol. Fala da História, da memória dos povos — muitos deles escravizados durante séculos — e que hoje estão presentes em inúmeros países. Fala também de pertencimento e dos caminhos invisíveis que unem continentes separados por mares e por gerações.
Provavelmente, na prática, o resultado daquela partida não fará grande diferença, e ambas as seleções seguirão adiante na competição. Espero, na verdade, que África e França caminhem lado a lado na construção de um mundo mais justo, menos desigual e mais fraterno.
Então terá vencido algo maior do que uma seleção ou um continente. Terá vencido a capacidade humana de construir pontes, de acolher diferenças e de compreender que identidade e convivência não são conceitos opostos. (Saudades do Padre Hortal e de São João Paulo II, que me ensinaram que existem pontes muito mais sublimes do que as de concreto armado ou de aço).
Pensando bem, talvez Deus tenha criado os oceanos não para separar os homens, mas para ensinar-lhes o valor dos encontros.



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