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Amigos Assim - O Giles

  • Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
    Paulo Alcantara Gomes
  • 23 de jun.
  • 8 min de leitura

Paulo Alcantara Gomes

Engenheiro Civil


Há pessoas que marcam nossas vidas de forma tão profunda que permanecem conosco para sempre. São muitas. Talvez mais do que eu consiga contar. Por isso resolvi escrever sobre elas aos poucos, uma história de cada vez, lembrando aqueles que caminharam ao meu lado, e ainda caminham, e ajudaram a construir a pessoa que sou.


Antes, porém, preciso abrir uma exceção.


Pretendo falar dos amigos, mas não posso começar sem mencionar meu irmão Roberto, que faleceu em 1991, no auge de uma das carreiras mais brilhantes que já testemunhei, e minha irmã Helena. Eles não pertencem exatamente à categoria dos amigos. Eram muito mais do que isso. Eram parte inseparável da minha própria vida. Sinto saudades deles, como sinto dos meus pais, dos meus avós, dos tios e tias, da minha madrinha Maria Augusta, Baby para todos nós, de meu padrinho Juca, e do Hugo e do Zizi. Sobre todos eles ainda escreverei. Hoje quero apenas deixar registrado que jamais esquecerei Roberto e Helena. Ninguém teve irmãos como os meus. Talvez por isso eu continue, consciente ou inconscientemente, procurando-os nas pessoas que encontro pelo caminho.


Não é simples encontrar uma nova irmã. Fomos educados em outro tempo. Mariana, minha filha, certamente diria que era uma época machista, e talvez tenha razão. O fato é que crescemos em ambientes essencialmente masculinos. No Colégio Militar não havia mulheres. Na minha turma da antiga Escola Nacional de Engenharia existia apenas uma. Passamos da adolescência à vida adulta cercados por colegas homens e, naturalmente, aprendemos a construir amizades masculinas com muito mais facilidade. Durante décadas isso pareceu normal. Hoje, quando um senhor de oitenta e um anos fala da amizade que tem por uma mulher, sempre existe quem procure interpretações equivocadas. Paciência. O mundo muda. E talvez mude mais rapidamente do que imaginamos.


Mas não é sobre isso que quero falar.


Quero falar do Giles.



Conheci o Giles quando eu presidia o Sebrae e ele trabalhava na FIRJAN. Desde o primeiro contato ficou evidente que eu estava diante de alguém especial. Poliglota, administrador competente, estrategista brilhante, profissional respeitado e possuidor de uma cultura impressionante. Entretanto, nenhuma dessas qualidades era a que mais chamava atenção. O que realmente o distinguia era a humildade.


Recordo-me de uma reunião realizada no Sebrae para discutir as enchentes recorrentes que afligiam diversas regiões do Estado do Rio de Janeiro, particularmente na bacia do Paraíba do Sul. Participavam técnicos, especialistas, dirigentes e representantes de várias instituições. Em determinado momento percebi um senhor circulando pela sala, servindo café com absoluta naturalidade aos presentes. Perguntei quem era e recebi uma resposta que me surpreendeu: tratava-se justamente de uma das pessoas mais preparadas da reunião.


Sem rodeios, como costuma fazer quem estudou no Colégio Militar e aprendeu que sinceridade raramente deve ser adiada, fui até ele e perguntei:


— Giles, o que você está fazendo aí servindo café, se entende mais desse assunto do que boa parte dos que estão sentados à mesa?


Com a tranquilidade dos verdadeiros sábios, respondeu em seu francês impecável:

— Patron, alguém precisa servir o café.


Naquele instante nasceu minha admiração. Com o passar dos anos, ela se transformou em amizade.


A convivência foi se ampliando. Mais tarde, Giles ajudaria meu filho João Paulo quando este ingressou na FIRJAN para trabalhar com Amaury Temporal, outro grande amigo, conhecedor enciclopédico de Paris, de suas ruas, de seus museus, de seus cafés e restaurantes. Sempre suspeitei que Amaury apreciava praticamente toda a culinária francesa, exceto pizza, que, em Paris, não é italiana.


Foi também por meio do Giles que conheci a Zô. Inteligente, elegante, culta e extremamente gentil, ela dirigiu a Alliance Française e logo conquistou a admiração de todos que conviviam com ela. Nossa relação era cordial, afetuosa, embora não especialmente próxima. Encontrávamo-nos em recepções, jantares e eventos sociais. A vida seguia seu curso.


Então aconteceu uma das grandes mudanças da minha existência. Separei-me e me casei com a Evinha. A reação de muitas pessoas foi difícil. Alguns amigos se afastaram, outros preferiram manter distância. O tempo, entretanto, costuma ser mais sábio do que nós. Quando Eva e eu oficializamos nossa união no civil, convidei  uns poucos amigos. Giles compareceu sozinho. Estavam presentes Armando, Paula, Álvaro, Cézar K., cujo sobrenome continua praticamente impronunciável para mim, e Alice, minha querida sogra, que inicialmente também me observava com certa desconfiança. Com os anos, porém, tornou-se uma das minhas grandes amigas. Tenho fotografias maravilhosas ao seu lado. Ríamos, discutíamos, discordávamos de quase tudo e, justamente por isso, gostávamos tanto um do outro.


O verdadeiro milagre, porém, ocorreu quando Eva e Zô finalmente se encontraram. Houve entre elas uma identificação imediata. Talvez amizade à primeira vista seja a melhor definição. Passaram a conversar com frequência, a visitar-se, a compartilhar alegrias, preocupações e, naturalmente, comentários sobre as aflições, que não eram poucas, dos respectivos maridos . Quando percebi, já haviam construído uma amizade muito mais sólida do que qualquer uma que eu pudesse ter imaginado.


Algum tempo depois, Giles e Zô decidiram mudar-se para Paris. Possuíam um apartamento em Châtelet, relativamente próximo da Rue Tronchet, onde Eva e eu costumamos nos hospedar. Isso tornou nossos encontros ainda mais frequentes. Quando íamos à França, encontrávamo-nos. Quando vinham ao Rio, repetíamos o ritual. A amizade atravessou oceanos sem perder intensidade.


Graças a eles vivi experiências inesquecíveis. Conheci a Dordogne, Toulouse, Marseille, Nice e Sophia Antipolis, um dos mais impressionantes parques tecnológicos da Europa. Estive inúmeras vezes em Paris.


Em certa ocasião resolvemos visitar Solesmes para assistir aos famosos cantos gregorianos. A ideia parecia excelente. O problema foi que nosso simpático motorista brasileiro decidiu privilegiar as estradas secundárias e as paisagens do interior francês. O resultado foi previsível: chegamos tarde demais. Perdemos as orações, perdemos os cantos e nos restaram um almoço animado, algumas fotografias e um DVD. Depois disso nunca senti grande necessidade de retornar ao mosteiro.


Noutra viagem, em Marseille, durante os dias do conclave que elegeria um novo Papa, saímos para jantar acompanhados do Padre Hortal. A certa altura da noite resolvi anunciar aos presentes que o conclave já havia terminado e que o novo pontífice era justamente o Padre Hortal. Passei de mesa em mesa transmitindo a notícia aos franceses. Hortal, que me conhecia suficientemente bem para prever qualquer extravagância, limitava-se a sorrir. Quando deixamos o restaurante, Armando aproximou-se discretamente e aconselhou:


— Paulo, pega leve. O Hortal é padre.


Naturalmente não dei a menor atenção ao aviso. O resultado foi que o nosso improvável candidato ao trono de São Pedro saiu do restaurante sob aplausos, agradecendo com elegância aos seus entusiasmados eleitores franceses.

Por trás de muitas dessas histórias estava sempre o Giles. Sereno, leal, discreto e presente. Um amigo daqueles que não precisam aparecer para serem importantes.

A vida, entretanto, também cobra seus tributos.


Um dia soubemos que a Zô estava gravemente doente. Ainda conseguimos visitá-la duas vezes. Conversamos, recordamos viagens, compartilhamos esperanças. Mas há batalhas que nem a coragem, nem a amizade, nem o amor conseguem vencer. A doença avançou e acabou por levá-la.


Sua partida deixou um vazio enorme em todos nós.


Costumo pensar que muita gente confunde amor com paixão ou desejo. Talvez porque nunca tenham experimentado certas formas de afeto que nada têm a ver com sexualidade. Não sabem o que significa amar a Deus, cultivar a amizade verdadeira, praticar a lealdade ou permanecer ao lado de alguém durante décadas simplesmente porque sua presença tornou nossa vida melhor.


A morte da Zô deixou lágrimas, saudades e nossos corações profundamente feridos. Mas deixou também a lembrança de uma mulher extraordinária, cuja passagem pelo mundo iluminou a vida de todos que tiveram o privilégio de conhecê-la.


Continuamos encontrando Giles sempre que possível, seja no Rio, seja em Paris. Houve momentos difíceis nos últimos anos. A saúde me impôs desafios importantes. Em mais de uma ocasião imaginei que minhas viagens haviam terminado. Felizmente consegui me recuperar. Aos poucos, Eva e eu estamos retomando nossos caminhos, sempre juntos.


Brevemente nos encontraremos novamente. Talvez no Casa Luna, atrás dos jardins do Palais Royal. Conversaremos sobre política, literatura, viagens, família e sobre aqueles que já partiram. Como sempre acontece entre irmãos que a vida escolheu para nós.

E foi justamente por causa de uma fotografia que resolvi começar esta série pelo Giles.


Dias atrás ele visitou meu blog e encontrou uma imagem de dois velhinhos — ou talvez de dois “antigos”, que me parece uma palavra mais elegante. Pouco depois enviou-me duas fotografias semelhante: ele e a nossa inesquecível Zô.

Confesso que a saudade voltou imediatamente.


Ao olhar aquela imagem revi décadas inteiras. Vi viagens, risadas, conversas, encontros e despedidas. Vi pessoas que já partiram e outras que permanecem. Vi a prova de que certas amizades sobrevivem ao tempo, à distância e até mesmo à morte.

Assim são os amigos.



Por isso gosto tanto de uma canção venezuelana chamada “Amigos Así”. Ouvi-a pela primeira vez há alguns anos, em Santiago de Compostela, durante uma missa em que foi utilizado o monumental botafumeiro da catedral. Desde então ela se transformou numa espécie de hino pessoal. Já a utilizei aqui no blog quando me despedi do Guri, outro amigo inesquecível de mais de duas décadas.


Vou utilizá-la novamente.


Desta vez para homenagear Giles, o primeiro de uma longa lista de amigos que ainda pretendo recordar.


Porque, ao final das contas, a verdadeira riqueza de uma vida talvez não esteja nos cargos ocupados, nos títulos conquistados ou nos lugares visitados.


Talvez esteja simplesmente nas pessoas que tivemos a sorte de amar.


É isso!


Vocês sabem que, como sempre, fiz, por uma questão de princípio e de educação, coisas da minha mãe, a Eunice, consultei o Giles se poderia usar as fotos e colocar o texto no Blog e no Instagram. Não invadiria jamais a privacidade de alguém.

Fiquei feliz e emocionado ao ver a resposta dele, que transcrevo abaixo, agora sem autorização.


Patron, Se você nunca viu um cara de quase 88 anos chorar, e chorar  abundamente,  lhe peço gentilmente imaginar esta cena em frente a seus olhos.  Para mim e especialmente para a ZO, mulher maravilhosa que sempre orientou minha vida e que continua a orientá-la, tínhamos uma imensa honra de poder contar com seu convívio e de Eva, que adotamos não é porque e sua esposa, mas por que ela demonstra nos seus olhos e suas atitudes que ela e uma mulher a sua altura.


Você nao precisa de minha autorização para dizer tantas mentiras a meu respeito, Mas saiba que se você se deu tanto mal a colocá-las no papel,  você não só demonstra que é um grande amigo, mas especialmente é uma grande alma cristã que tem a capacidade de detectar, e ler na Alma das pessoas.


Eu não fiz nada de especial, simplesmente considero que não há ninguém mais importante ou mais necessário que o outro.. A reza do escoteiro dizia: "A donner sans compter",  "a combatre sans soucis des blessures", " a travailler sans chercher le repos" " a nous depenser, sans attendre d'autres recompenses, que celle de savoir, que nous faisons votre Sainte Volonte".


E ESTA PROMESSA QUE TENTO SEGUIR. MERCI GILLES


Bem,  queridos amigos. Vejam só como a amizade e o amor são duas coisas das mais importantes de nossas vidas. Eu sigo a risca aquela música do Gilbert Becaud, “Un peu d’amour et d’amitié”, sempre lembrando que o mais importante é a fé em Deus.

Aliás, vou pedir a Stephanie, minha secretária e amiga, para também colocar aqui a música do Gilbert Becaud. Por isso, vou escrever sobre cada um deles, os que estão aqui para reclamar e os que já partiram. Todos, sem exceção.


Volto logo. Estou terminando um texto sobre a importância das Academias. Provavelmente amanhã de manhã estará no ar, depois da aula na Politécnica.




 
 
 

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