As Gruas Chinesas e a Soberania Tecnológica do Brasil
- Paulo Alcantara Gomes

- 3 de jul.
- 5 min de leitura
Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
28 de junho de 2026
Há alguns meses, durante um seminário promovido pela FINEP e pelo Clube de Engenharia sobre a indústria brasileira e a formação de engenheiros, ouvi uma história que continua voltando à minha memória. Alguém poderia imaginar que se tratasse apenas de uma curiosidade histórica. Hoje estou convencido de que ela contém uma das mais importantes lições sobre desenvolvimento para o Brasil.
Quem a contou foi minha querida amiga Cláudia Morgado, então Diretora da Escola Politécnica da UFRJ e hoje Decana do Centro de Tecnologia.
Na década de 1990, quando a China iniciou um gigantesco programa de expansão urbana e de construção de moradias, deparou-se com um problema aparentemente simples: precisava de muitas gruas para construir edifícios, pontes, viadutos e barragens, mas não dominava essa tecnologia. A solução adotada revela muito da visão estratégica daquele país.

O governo adquiriu gruas produzidas no exterior e as distribuiu entre escolas de engenharia e centros de pesquisa, desafiando professores e estudantes a compreender seu funcionamento, aperfeiçoá-las e a desenvolver equipamentos tecnologicamente superiores. Em seguida, mobilizou a indústria para transformar aquele conhecimento em capacidade produtiva.
O objetivo não era apenas copiar, mas dominar tecnologias , aprender, inovar, e construir uma competência nacional.
Poucas décadas depois, a China tornou-se líder mundial na fabricação de gruas e de inúmeros outros equipamentos de elevada complexidade tecnológica.
Essa história nos leva inevitavelmente a uma pergunta: Por que a China conseguiu transformar conhecimento em indústria, e o Brasil não?
O Brasil percorreu um caminho importante na construção de sua capacidade científica. Criamos o CNPq, fortalecemos a CAPES, implantamos o FUNTEC no BNDES, estruturamos a FINEP e construímos um sistema nacional de pós-graduação reconhecido internacionalmente. Tive o privilégio de testemunhar a formação de gerações de pesquisadores e engenheiros altamente qualificados.
Hoje figuramos entre os países que mais publicam artigos científicos no mundo. Em diversas áreas conquistamos reconhecimento internacional e, em alguns setores da engenharia, como a exploração de petróleo em águas profundas, alcançamos posições de liderança tecnológica. Entretanto, permanece um enorme vazio entre a produção do conhecimento e sua transformação em riqueza, produtividade e competitividade.
Construímos universidades, centros de pesquisa e programas de pós-graduação, mas nunca conseguimos construir, de forma consistente, a ponte entre esses ativos e o setor produtivo.
Essa talvez seja a maior deficiência estrutural do desenvolvimento brasileiro, pois enquanto diversos países utilizaram universidades, institutos de pesquisa e empresas como partes de uma mesma estratégia nacional, nós tratamos esses ambientes como se pertencessem a mundos diferentes.
O resultado aparece de forma cada vez mais evidente, e assim grande parte da indústria brasileira deixou de desenvolver produtos próprios. Em muitos setores, limita-se à montagem de equipamentos concebidos no exterior, à fabricação sob licença ou à execução de etapas de produção de baixo conteúdo tecnológico.
Perdemos, pouco a pouco, a capacidade de conceber tecnologias, desenvolver produtos e disputar mercados internacionais, o que significa muito mais do que perda de competitividade.
Essa é a perda de soberania tecnológica, e um país que perde sua soberania tecnológica passa, inevitavelmente, a depender das decisões tomadas por outros.
A extraordinária capacidade industrial da China representa uma das maiores transformações econômicas da história contemporânea. Isso não deve ser visto como uma ameaça em si mesma, pois toda nação tem o direito de buscar seu desenvolvimento e ampliar sua competitividade.
O verdadeiro risco para o Brasil está em permanecer passivo diante dessa transformação histórica, porque enquanto os chineses investiram de forma integrada em educação, engenharia, ciência, tecnologia, inovação e política industrial, nós fomos reduzindo nossa capacidade de desenvolver produtos, dominar tecnologias e competir nos setores de maior intensidade tecnológica.
Se continuarmos nesse caminho, corremos o risco de ocupar uma posição periférica na economia mundial: consumidores de tecnologias produzidas por outros, exportadores de produtos de baixo valor agregado e importadores permanentes de conhecimento. Nenhuma nação que aspire ao desenvolvimento sustentável pode aceitar esse destino.
Enquanto isso, continuamos tratando educação, ciência e tecnologia como despesas e não como investimentos estratégicos. Os sucessivos cortes nos orçamentos das universidades e das agências de fomento refletem essa visão de curto prazo.
Também negligenciamos a formação dos engenheiros. Para ser ter uma ideia, o Brasil possui hoje cerca de seis mil cursos de graduação em engenharia, convivendo com elevadas taxas de evasão, formação básica insuficiente em Matemática, Física, Química e Biologia e currículos que, em muitos casos, ainda não acompanham a velocidade das transformações tecnológicas.
Além disso, consolidou-se em parte das universidades uma cultura excessivamente voltada para a formação acadêmica. O estudante conclui a graduação, ingressa imediatamente no mestrado, depois no doutorado e, frequentemente, retorna à universidade como professor sem jamais ter enfrentado os desafios da engenharia praticada nas empresas, nas fábricas, nos laboratórios de desenvolvimento ou nos canteiros de obras.
É lógico que precisamos de pesquisadores, mas precisamos igualmente de engenheiros inovadores e de profissionais capazes de conceber tecnologias inéditas, liderar inovações radicais e de criar novos produtos.
Precisamos também de engenheiros capazes de dominar tecnologias existentes, compreender seus fundamentos científicos, aperfeiçoá-las e, a partir delas, desenvolver soluções genuinamente brasileiras. Infelizmente, em muitos setores já não fazemos sequer isso. Limitamo-nos, frequentemente, a operar tecnologias concebidas no exterior, abrindo mão da capacidade de aprender, criar e de inovar.
Essa realidade exige uma profunda revisão das políticas públicas e não basta apoiar algumas universidades de excelência.
É necessário fortalecer todo o sistema brasileiro de formação em engenharia e tecnologia, respeitando as diferenças regionais e estimulando a cooperação entre universidades, institutos de pesquisa, escolas técnicas, empresas e governos.
Em 2024 foi lançado o programa Nova Indústria Brasil, mobilizando centenas de bilhões de reais para estimular a modernização da indústria nacional. Esta é.uma iniciativa relevante, sem dúvida, mas ela nos obriga a fazer algumas perguntas: Quem desenvolverá as tecnologias que essa nova indústria necessitará? Quem conceberá os novos produtos? Quem dominará os processos produtivos mais avançados? Quem formará os engenheiros e técnicos capazes de liderar essa transformação?
Sem respostas consistentes para essas perguntas, corremos o risco de modernizar instalações sem assegurar nossa capacidade de inovar. A história das gruas chinesas ensina que desenvolvimento não se compra. Na verdade, constrói -se, sempre investindo em pessoas, em educação, em engenharia, em ciência, em tecnologia, em inovação e na permanente interação entre universidades e empresas.
O Brasil possui inteligência, criatividade, universidades competentes e uma juventude extraordinariamente talentosa. O que ainda nos falta é um projeto nacional capaz de transformar esses ativos em desenvolvimento.
Porque o verdadeiro patrimônio de uma nação não está apenas em suas riquezas naturais, mas na capacidade de produzir conhecimento, dominar tecnologias e construir seu próprio futuro. E nenhuma reconstrução industrial será possível sem uma reconstrução equivalente da engenharia brasileira.
Sem soberania tecnológica não existe desenvolvimento sustentável. Existe apenas dependência.
Essa talvez seja a maior lição que podemos aprender com a história das gruas chinesas. Se não a compreendermos, corremos o risco de transformar o Brasil em uma nação permanentemente dependente das tecnologias concebidas por outros.



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