As Universidades do Futuro: Mestrados e Doutorados — Permanência ou Reinvenção?
- Paulo Alcantara Gomes

- 15 de jun.
- 4 min de leitura
Paulo Alcantara Gomes
Professor Emérito e ex-Reitor da UFRJ
Presidente da Associação Brasileira de Educação
15/06/2026
Nos artigos anteriores, procurei refletir sobre as transformações que vêm atingindo a universidade: a perda do monopólio do conhecimento, a interdisciplinaridade crescente, o avanço do modelo STEAM, a educação a distância, a inteligência artificial e as mudanças profundas nas profissões. Talvez seja inevitável, agora, enfrentar uma questão particularmente sensível: o futuro dos mestrados e doutorados.
O modelo atual de pós-graduação stricto sensu foi uma das grandes construções intelectuais da universidade moderna. Em países como o Brasil, teve papel decisivo na formação de pesquisadores, na consolidação da ciência nacional e na criação de uma cultura acadêmica capaz de sustentar avanços importantes em diversas áreas do conhecimento.

O nosso modelo se deve ao extraordinário espírito empreendedor de Newton Sucupira, Alberto Coimbra, José Leite Lopes, José Pelucio Ferreira, Carlos Chagas Filho, Paulo de Goes, Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, Milton Vargas, Telêmaco Van Langendonck, Fernando Lobo Carneiro, Erich Caspar Stemmer, José Serafim Gomes Franco, Décio Leal de Zagottis, Alceu Pinho Filho, e outros, que, com esforço e dedicação, conseguiram superar enormes obstáculos nas suas próprias universidades, de norte a sul do país, e construíram um sistema sólido e competente, que já existe desde 1961, no ITA, e 1963, na COPPE. Seria um erro ignorar esse legado.
No entanto, talvez seja igualmente equivocado imaginar que um modelo concebido para os desafios do século XX possa permanecer inalterado diante das profundas transformações tecnológicas, econômicas e sociais do século XXI.
Historicamente, mestrados e doutorados foram organizados para atender a objetivos relativamente claros: formar pesquisadores, alimentar a carreira acadêmica, aprofundar especializações disciplinares e produzir conhecimento novo em áreas relativamente delimitadas.
Esse arranjo funcionou razoavelmente bem em um mundo mais estável, no qual carreiras acadêmicas eram previsíveis, fronteiras disciplinares mais nítidas e o conhecimento científico evoluía em ritmos menos vertiginosos. Entretanto, esse mundo mudou.
Hoje, uma parcela crescente de mestres e doutores, mas ainda insuficiente para as necessidades do desenvolvimento, desenvolve sua trajetória profissional fora da universidade. Empresas de tecnologia, centros de inovação, hospitais, órgãos públicos, startups, consultorias, organizações internacionais e setores produtivos altamente intensivos em conhecimento passaram a demandar profissionais com formação avançada.
Entretanto, ainda insistimos, muitas vezes, em formar pós-graduandos predominantemente para uma carreira acadêmica que já não consegue absorvê-los.
Surge, então, uma pergunta inevitável: estamos formando pesquisadores para os desafios do futuro ou reproduzindo estruturas do passado?
Além disso, a velocidade da transformação tecnológica tornou parte dos modelos formativos excessivamente lentos. Em alguns campos, conhecimentos adquiridos no início de um doutorado podem sofrer mudanças substanciais antes mesmo da defesa da tese.
A inteligência artificial acrescenta uma nova camada de complexidade. Ferramentas inteligentes já auxiliam revisões bibliográficas, organização de bases de dados, modelagem estatística, programação, tradução, tratamento de imagens e até a redação preliminar de textos acadêmicos. Isso não elimina a necessidade do pesquisador — longe disso — mas altera profundamente o que entendemos por formação avançada.
Se algoritmos podem ajudar a produzir parte do trabalho técnico, o valor da pós-graduação tende a deslocar-se para aspectos ainda mais humanos: formular perguntas originais, interpretar criticamente resultados, integrar conhecimentos, enfrentar dilemas éticos e produzir inovação relevante.
Talvez, no futuro, a qualidade de uma dissertação ou tese seja menos medida pela extensão do documento produzido e mais pela originalidade da pergunta formulada, pela relevância do problema enfrentado e pelo impacto do conhecimento gerado.
Outra questão delicada merece ser enfrentada: a crescente cultura do produtivismo acadêmico. Em muitos contextos, publicar passou a ser quase um fim em si mesmo. A pressão por artigos, métricas, índices de impacto e avaliações quantitativas trouxe ganhos inegáveis, mas também distorções.
Nem sempre quantidade significa relevância. Nem sempre produtividade corresponde a criatividade científica. Por vezes, corre-se o risco de formar especialistas em navegar sistemas de avaliação, mas não necessariamente pesquisadores preparados para enfrentar os grandes problemas contemporâneos.
Nesse debate, os mestrados profissionais merecem atenção especial. Durante muito tempo, persistiu entre nós certa visão implícita de que o mestrado profissional seria uma modalidade “inferior” ao mestrado acadêmico — percepção que me parece equivocada.
Em diversos países, sistemas maduros de pós-graduação operam com trajetórias múltiplas e igualmente respeitadas. Nos Estados Unidos, os professional master’s degrees e os MBA desempenham papel relevante na formação avançada de profissionais altamente qualificados. Na Alemanha, a articulação entre universidade e setor produtivo constitui parte importante da formação tecnológica. No Reino Unido, expandem-se modalidades de doutorados industriais, frequentemente desenvolvidos em parceria com empresas e centros de inovação. Na Itália, mesmo com a implantação do Acordo de Bolonha e do Espaço Europeu da Educação Universitária, várias universidades preservaram o título de Doutor Engenheiro. Na China, a expansão da pós-graduação vem sendo fortemente associada a estratégias nacionais de desenvolvimento tecnológico e industrial.
Talvez o problema brasileiro não esteja na existência de diferentes modelos, mas na dificuldade de reconhecer que objetivos distintos exigem percursos distintos.
Um mestrado voltado à formação científica acadêmica possui natureza diversa de um mestrado orientado para inovação, solução de problemas complexos ou liderança tecnológica. Ambos podem ser rigorosos. Ambos podem gerar conhecimento relevante. Ambos podem ter enorme valor social. Seguramente, o mesmo ocorre com os doutorados.
Não será absurdo imaginar, no futuro, modelos mais diversificados: doutorados científicos voltados à produção de conhecimento fundamental; doutorados profissionais ou tecnológicos orientados à inovação, percursos interdisciplinares estruturados em torno de grandes desafios sociais; e trajetórias de aprendizagem contínua capazes de acompanhar profissionais ao longo de toda a vida.
A pergunta talvez seja ainda mais ampla: faz sentido imaginar que um profissional obtenha sua formação avançada aos trinta anos e jamais retorne à universidade para atualizar-se profundamente? O Reitor Cristóvão Buarque, professor emérito da UnB e ex-ministro da Educação, já falou exaustivamente sobre isso. Darcy Ribeiro propôs um novo olhar sobre a “perenidade” dos diplomas na UnB e na UENF.
Entendo que a universidade do futuro precisa abandonar a lógica de formação concentrada em etapas rígidas e assumir uma nova missão: acompanhar permanentemente a reinvenção intelectual e profissional das pessoas. Não se trata de destruir o modelo atual de pós-graduação, mas de reconhecer que ele necessita mudar para continuar relevante.
Mais uma vez surge a grande dúvida, numa espécie de “To be or not to be?” Shakespiriano: A questão principal talvez não seja se os mestrados e doutorados irão mudar. A dúvida é saber se teremos coragem institucional para transformá-los antes que a realidade o faça por nós...



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