E se pensássemos primeiro no Brasil? Para além da Esquerda e da Direita
- Paulo Alcantara Gomes

- 15 de jun.
- 10 min de leitura
Atualizado: 7 de jul.
Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
15/06/2026
A divisão entre esquerda e direita nasceu durante a Revolução Francesa, no final do século XVIII. Na Assembleia Nacional, os defensores de mudanças mais profundas na organização da sociedade costumavam sentar-se à esquerda do presidente da mesa, enquanto aqueles que defendiam posições mais moderadas ou a preservação de determinadas instituições ocupavam os lugares à direita.
A própria Revolução Francesa demonstrou a complexidade dessas divisões. Entre os revolucionários destacavam-se os Jacobinos, liderados por Robespierre, defensores de transformações radicais e de forte centralização do poder revolucionário. Em posição mais moderada encontravam-se os Girondinos, que defendiam mudanças importantes, mas rejeitavam muitos dos excessos que acabariam marcando o chamado Período do Terror.
Outras correntes surgiram ao longo daquele processo. Os chamados Indulgentes, associados a Danton e Desmoulins, procuraram conter a escalada da violência política e defenderam maior conciliação nacional. Acabaram, entretanto, vítimas da própria radicalização revolucionária. Sugiro que vocês vejam um filme excepcional, denominado Danton, que vi há muitos anos. Creio ter sido o melhor desempenho do Gerard Depardieu.
A história registraria uma de suas maiores ironias. Danton foi guilhotinado pelo governo revolucionário. Pouco tempo depois, Robespierre também seria conduzido à guilhotina. A Revolução que prometia libertar a França acabou consumindo muitos de seus próprios líderes. Eu já fui Girondino, depois, Jacobino, e acho que sou agora Indulgente. De qualquer forma, meu caminho é a guilhotina.
Talvez a maior lição daquele período não seja apenas a origem das palavras esquerda e direita, mas o preço que as sociedades pagam quando o diálogo cede lugar ao radicalismo e quando adversários passam a ser tratados como inimigos.
Os séculos mudaram. A natureza humana, nem tanto. Ao longo de mais de duzentos anos, essa classificação ajudou a organizar o debate político em grande parte do mundo. Surgiram diferentes correntes de pensamento, diferentes formas de compreender a economia, a sociedade e o papel do Estado.
O século XX ampliou essa divisão. A Revolução Russa de 1917, a formação da União Soviética, a Guerra Fria e os conflitos que marcaram a Europa, a Ásia e outras regiões do planeta transformaram a disputa ideológica em um fenômeno global. Durante décadas, parecia impossível discutir política sem escolher um dos lados dessa grande divisão.
Entretanto, o mundo também mudou. A revolução tecnológica transformou a produção, a comunicação e o conhecimento. A globalização aproximou economias e sociedades. Novas potências surgiram. A China construiu um modelo próprio de desenvolvimento, difícil de enquadrar nas categorias tradicionais do século passado. A inteligência artificial começa a alterar profundamente a forma como trabalhamos, aprendemos e tomamos decisões.

Ao mesmo tempo, os grandes desafios da humanidade tornaram-se cada vez mais complexos. A fome continua atingindo milhões de pessoas. As guerras continuam destruindo vidas. Milhões de refugiados continuam procurando segurança e dignidade. As crises sanitárias continuam ameaçando populações inteiras. As desigualdades sociais permanecem profundas. As mudanças climáticas desafiam governos e sociedades em escala global.
Nenhum desses problemas pergunta se suas vítimas são de esquerda ou de direita.
Não interessa a uma criança com fome qual é a nossa ideologia. Ela precisa de alimento. Um doente não procura um partido político; procura atendimento. Um jovem desempregado não deseja discursos, mas oportunidades Um refugiado não busca uma teoria, mas proteção.
Escrevo isso não apenas por convicção, mas também por experiência. Tive a oportunidade de visitar campos de refugiados na África Subsaariana e testemunhar de perto a realidade de pessoas que perderam quase tudo. Naquele ambiente, ideologias importavam muito menos do que alimento, segurança, saúde e esperança.
Isso não significa que as diferenças entre esquerda e direita tenham desaparecido. Elas continuam existindo e continuarão existindo. Em uma democracia saudável, diferentes visões de mundo são legítimas e necessárias.
O problema surge quando as ideologias passam a valer mais do que as pessoas, quando o adversário político deixa de ser um cidadão com opiniões diferentes e passa a ser tratado como inimigo, quando o radicalismo substitui o diálogo, quando o ódio substitui o respeito; e quando a busca pelo poder substitui a busca pelo bem comum.
Talvez seja o momento de recuperar valores que estão acima das ideologias. A honestidade, a responsabilidade, a lealdade, a compaixão não pertencem à esquerda nem à direita.
Sou católico e acredito profundamente nesses valores. Ao longo da vida, convivi com pessoas de diferentes crenças religiosas e aprendi que a busca pelo bem do próximo, a solidariedade e a dignidade humana são princípios compartilhados por inúmeras tradições espirituais. Como em qualquer atividade humana, existem exceções. Mas o que importa são os valores que nos aproximam e nos tornam melhores.
O compromisso com a verdade não pertence à esquerda nem à direita. É preciso compreender que esses valores pertencem à própria condição humana.
Entendo que, justamente por isso, devamos começar a discutir algo maior do que eleições, governos ou partidos e que é hora de discutir um projeto de nação.
Não um projeto para quatro anos, o tempo de um governo, mas para os próximos trinta ou cinquenta anos. Um projeto capaz de enfrentar nossas desigualdades sociais, reduzir as disparidades espaciais que ainda separam regiões, estados, cidades e bairros, garantir oportunidades para quem nasce em qualquer lugar do território nacional, valorizar a educação, a ciência, a cultura, a inovação, a tecnologia e o trabalho, e compreender que desenvolvimento econômico e desenvolvimento humano não são objetivos concorrentes, mas complementares.
Mas quem deve participar da construção desse projeto? A resposta é muito simples: todos.
Nas universidades, pesquisadores discutem legitimamente a ampliação da pesquisa científica, a formação de mestres e doutores, a produção de conhecimento e a inovação tecnológica. Tudo isso é fundamental.
Mas é importante fazer algumas perguntas adicionais. O que pensam os porteiros? E os motoristas? E os agricultores, os operários da construção civil, os trabalhadores da indústria, os professores da educação básica, os profissionais da saúde, os empresários, os industriais? Em síntese, o que pensam aqueles que enfrentam diariamente os desafios concretos do Brasil?
Nenhuma nação se constrói apenas nos parlamentos, nos laboratórios ou nas universidades. Elas começam a ser construídas ouvindo sua população. É lógico que o conhecimento científico é indispensável. Graças a ele, enfrentamos desafios ligados à saúde, à segurança alimentar, à mobilidade urbana e a tantas outras questões fundamentais.
Mas a experiência de vida também é indispensável. A verdadeira inteligência nacional nasce do diálogo entre esses diferentes saberes. Recentemente escrevi vários artigos sobre a pesquisa, a formação de mestres e doutores, a “implosão” das universidades em todo o mundo. Neles coloquei minhas aflições, já que jamais terei condições para solucionar muitas delas.
Foi justamente essa reflexão que me acompanhou após participar de uma reunião com professores, técnicos administrativos e estudantes da UFRJ, promovida pelo atual reitor, meu querido amigo Roberto Medronho. Lá, entre amigos, conversei e ouvi reflexões memoráveis.
A professora Andréia Berfort, representante de uma nova geração acadêmica, comentou comigo suas experiências na China e na Itália, onde ambos estudamos em épocas muito diferentes, pois ela tem idade para ser minha filha. Lembrou ainda que a universidade do século XXI precisa dialogar com o mundo sem perder sua capacidade de compreender e transformar a realidade brasileira.
A professora Cláudia Morgado, recém-eleita decana do Centro de Tecnologia, trouxe reflexões particularmente instigantes sobre os desafios da engenharia, da indústria, da inovação e das transformações que vêm ocorrendo em países como a China. Sua visão reforçou a convicção de que o desenvolvimento científico e tecnológico deve estar no centro de qualquer projeto nacional de longo prazo. Sou um fã declarado da Cláudia, pois admiro sua força de vontade, seu espírito empreendedor e sua capacidade criativa.
O ex-reitor Alexandre Pinto Cardoso, um médico notável. apresentou reflexões importantes sobre os caminhos da universidade. A pró-reitora Neusa Luzia Pinto, incansável defensora da universidade pública desde os tempos em que tive a honra de exercer a Reitoria (tivemos grandes brigas, mas nunca deixamos de ser amigos), trouxe sua reconhecida experiência institucional, sua capacidade de liderança e sua permanente defesa do diálogo.
Ao ouvir pessoas de diferentes gerações e trajetórias, percebi que a universidade realiza uma de suas funções mais nobres: criar um espaço onde experiência e renovação deixam de ser forças opostas e passam a trabalhar na construção de um futuro comum.
Saí daquele encontro convencido de que uma universidade é muito mais do que seus prédios, laboratórios ou cursos. Uma universidade é uma comunidade humana dedicada à construção do conhecimento e à busca de soluções para os desafios da sociedade. Foi justamente essa constatação que me levou a uma pergunta fundamental, pelo menos para mim: qual deve ser o papel da UFRJ na construção do Brasil do futuro?
A Universidade Federal do Rio de Janeiro ocupa um lugar singular na história nacional. Ao longo de gerações, contribuiu para formar profissionais, cientistas, intelectuais, artistas, engenheiros, médicos, juristas e servidores públicos que ajudaram a construir o Brasil moderno. E,a sempre será a Universidade do Brasil.
É uma instituição secular. As raízes históricas da Escola Politécnica remontam a 1792, enquanto a Faculdade de Medicina teve sua origem em 1808. Poucas instituições brasileiras possuem uma trajetória tão profundamente entrelaçada com a própria formação do país.
Sou um privilegiado. Gerações de minha família estudaram na UFRJ. Hoje, entretanto, tenho a alegria de conviver com colegas e amigos que foram os primeiros de suas famílias a ingressar e concluir uma universidade. Isso demonstra a extraordinária capacidade transformadora da educação pública quando ela é tratada como instrumento de inclusão, mobilidade social e desenvolvimento.
Mas acredito que a missão mais importante da UFRJ esteja adiante. Sua enorme contribuição histórica não a dispensa de pensar o futuro. Pelo contrário, a universidade não deve apenas acompanhar as transformações do país, e atender as demandas da sociedade, mas deve ajudar a pensar as primeiras, e a formular as perguntas que a sociedade ainda não percebeu que precisa fazer.
Seguramente uma universidade pública não existe apenas para seus professores, estudantes ou técnicos. Ela existe para servir à sociedade que a sustenta. Por isso, a excelência acadêmica, a pesquisa científica, a formação de professores, e demais profissionais, a formação de mestres e doutores e a inovação tecnológica são indispensáveis. Essa é a razão de ser de qualquer grande universidade.
Mas nada disso será suficiente se ela perder a capacidade de dialogar com o país real. Penso que a universidade não deve falar para a sociedade, e sim falar com a sociedade. Não se trata de uma questão de semântica. Ela deve ouvir trabalhadores, empreendedores, agricultores, professores, profissionais da saúde, moradores das periferias, jovens e idosos, e a partir daí, como dizia o meu querido e saudoso Padre Hortal, construir pontes. Pontes entre ciência e população, entre conhecimento e desenvolvimento, entre tecnologia e inclusão social, entre o crescimento econômico e a justiça social, e entre diferentes visões de mundo. Quem também falou bastante sobre as pontes foi o Papa, São João Paulo II, mas há ainda uma questão que merece reflexão.
Durante décadas, o Brasil investiu recursos significativos na formação de profissionais altamente qualificados. Nossas universidades formaram cientistas, engenheiros, médicos, pesquisadores e empreendedores de enorme competência. Muitos deles alcançaram reconhecimento internacional e isso é motivo de orgulho, mas também nos obriga a enfrentar uma pergunta incômoda: Estamos formando talentos para construir o futuro do Brasil ou apenas para atender às necessidades de outras economias?
Não há nada de errado em estudar, pesquisar ou trabalhar no exterior. A circulação internacional do conhecimento faz parte do mundo moderno. O problema surge quando a saída dos talentos deixa de ser uma escolha e passa a ser uma necessidade.
Quando jovens brilhantes — em alguns casos nossos filhos e netos — acreditam que suas melhores oportunidades estão sempre fora do país, pesquisadores encontram no exterior as condições que não conseguem encontrar em sua própria terra, percebemos que o nosso país está se acostumando a exportar inteligência e importar desenvolvimento.
É claro que não devemos impedir que nossos jovens conquistem o mundo, mas temos obrigação de edificar uma nação capaz de convencê-los de que vale a pena construir aqui uma parte significativa de seu futuro. O Brasil não precisa escolher entre formar cidadãos para o mundo ou para o país, mas tornar-se um país à altura dos cidadãos que forma.
Durante décadas fomos chamados de “o país do futuro”, expressão eternizada por Stefan Zweig. Essa frase atravessou gerações, transformando-se para alguns numa espécie de símbolo de esperança, e, para outros, uma dolorosa ironia. Isso pode ser traduzido como se o futuro estivesse sempre próximo, mas nunca chegasse completamente.
A verdadeira questão para o século XXI não é saber se continuamos sendo o país do futuro, mas saber quando decidiremos transformar esse futuro em presente.
Vejam só que temos um vasto territórios, recursos naturais extraordinários, uma das maiores biodiversidades do planeta, universidades de excelência, uma criatividade reconhecida internacionalmente e uma diversidade cultural construída por povos que aqui viviam muito antes da chegada dos europeus e por sucessivas gerações de imigrantes que ajudaram a construir nossa identidade.
Além disso, temos uma capacidade científica que nos coloca entre os países de maior produção acadêmica do mundo, e talentos extraordinários nas artes, na música, na literatura, no teatro, no cinema, nos esportes, na ciência e na tecnologia.
Entendo que ainda nos falta acreditar plenamente em nossa capacidade de construir um projeto nacional de longo prazo. O Brasil do futuro deve ser uma nação que valorize a educação, a ciência, o trabalho, o empreendedorismo, a cultura, a livre iniciativa, suas identidades nacionais e a ética pública.
Em resumo, deve ser um país que combata a corrupção sem distinções, que rejeite privilégios incompatíveis com a igualdade de oportunidades., fortaleça suas instituições democráticas, respeite a diversidade de opiniões sem transformar divergências em hostilidade.
O maior desafio do Brasil não é econômico, ou tecnológico, ou mesmo político. e sim moral. .Como costuma dizer meu amigo Flávio Grynspan, um notável engenheiro, precisamos abandonar a mentalidade de país eternamente dependente da aprovação dos outros.
Nenhuma nação se torna protagonista quando se vê apenas como vítima dos acontecimentos. O protagonismo nasce da confiança em si mesma e da capacidade de construir seu próprio caminho.
Precisamos reconstruir a confiança entre os cidadãos e nas instituições, em nossa capacidade de realizar aquilo que durante tanto tempo chamamos apenas de futuro, pois nenhuma nação prospera quando seus cidadãos deixam de acreditar uns nos outros.
É lógico que o Brasil nunca foi uma obra acabada. Sempre foi uma construção em andamento e nossa missão é continuar com essa construção, não para nós mesmos, para as futuras gerações.
Tenho convicção que chegou o momento de deixarmos de perguntar se uma ideia é de esquerda ou de direita e passarmos a perguntar se ela é boa para o Brasil, de substituirmos a lógica dos rótulos pela lógica dos resultados, o confronto pela cooperação e a divisão pela construção coletiva.
Afinal de contas, antes de sermos de esquerda ou de direita, somos brasileiros. Nosso país não será definido pelas disputas que travamos, mas pelo futuro que tivermos a coragem de construir juntos. Quando isso acontecer, deixaremos de ser uma promessa permanente e passaremos a ser uma nação protagonista de seu próprio destino.
Talvez tenha chegado a hora de trocar o conceito de esquerda e direita pelo conceito Brasil.
Confesso que, apesar de engenheiro civil, ligado “afetuosamente” ao cálculo estrutural, às matrizes, às equações diferenciais (que horror!) e aos métodos computacionais, tenho me tornado cada vez mais verborrágico. Talvez a idade nos faça essas coisas.
Depois de tantas páginas, tantas reflexões e tantas perguntas, descubro que o velho engenheiro continua procurando a mesma coisa que procurava diante de uma estrutura complexa: identificar seus pontos críticos e assegurar que ela não entrará em colapso.
E, se eu tivesse de resumir tudo o que foi dito neste artigo em uma única frase, ela seria simplesmente esta:
Antes de qualquer ideologia, o Brasil.



Comentários