Educação para um mundo em mudança
- Paulo Alcantara Gomes

- 16 de jun.
- 7 min de leitura
Paulo Alcantara Gomes
Professor Emérito e ex-Reitor da UFRJ
Presidente da Associação Brasileira de Educação
Ao longo dos últimos artigos procurei refletir sobre os desafios enfrentados pela universidade contemporânea: a digitalização do conhecimento, a interdisciplinaridade, o modelo STEAM, a inteligência artificial, as transformações das profissões, a necessidade de reinventar a pós-graduação e os novos papéis das ciências humanas, das artes, da pesquisa e da inovação.
Mas talvez exista uma questão ainda mais fundamental. Como construir a universidade do futuro sem transformar profundamente a educação básica?
No fundo, todas as discussões sobre inteligência artificial, inovação, competitividade, desenvolvimento sustentável e soberania tecnológica acabam convergindo para uma pergunta simples: estamos preparando nossas crianças e jovens para o mundo que está surgindo ou para um mundo que está desaparecendo?
A resposta não é confortável, mas, mesmo sabendo de minhas dificuldades, vou tentar colocar meu ponto de vista, pedindo a vocês imensas desculpas. A cada dia, me considero cada vez mais aprendiz do que professor.

Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, os resultados educacionais brasileiros continuam revelando dificuldades estruturais importantes. Milhões de estudantes concluem etapas da escolarização sem domínio adequado da leitura, da escrita e da matemática. Em muitas situações, jovens chegam ao ensino superior com dificuldades de interpretação de textos, argumentação lógica e resolução de problemas básicos.
Tal realidade deveria preocupar toda a sociedade. Afinal, leitura, português e matemática não constituem apenas disciplinas escolares. São instrumentos essenciais para compreender o mundo, exercer a cidadania, participar da vida econômica e construir conhecimento ao longo da vida.
Por essa razão, talvez a primeira prioridade nacional deve ser assegurar que toda criança brasileira desenvolva plenamente essas competências fundamentais, o que não é uma meta modesta, mas uma verdadeira revolução.
Entretanto, os desafios da educação brasileira vão muito além da aprendizagem básica, e a própria organização do conhecimento escolar merece reflexão.
Durante décadas estruturamos currículos em disciplinas relativamente isoladas, cada uma com seus conteúdos, métodos e formas de avaliação. Esse modelo contribuiu para organizar o ensino, mas apresenta limitações cada vez mais evidentes diante da complexidade do mundo contemporâneo. Felizmente, a ciência e a técnica avançaram e os grandes desafios do século XXI não se apresentam compartimentados.
Mudanças climáticas, transição energética, segurança alimentar, desenvolvimento sustentável, inteligência artificial, desigualdades sociais, competitividade econômica, disparidades regionais, mobilidade urbana, saúde pública e preservação da identidade cultural são exemplos que exigem integração de conhecimentos. É importante observar que a vida real não é disciplinar e a escola precisa deixar de ser.
Isto não significa eliminar disciplinas ou reduzir o rigor acadêmico. Significa criar mecanismos que permitam articulação entre elas, organizando parte da aprendizagem em torno de problemas concretos e temas relevantes para a sociedade.
Imaginemos um estudante discutindo mudanças climáticas, mobilizando conhecimentos de física, química, biologia, geografia, matemática, economia, sociologia e política pública. Ou ainda refletindo sobre energia a partir de conceitos científicos, tecnológicos, ambientais, históricos e econômicos.
A aprendizagem tende a tornar-se mais significativa quando o conhecimento encontra propósito.
Nesse contexto, abordagens inspiradas no modelo STEAM — Science, Technology, Engineering, Arts and Mathematics — podem desempenhar papel fundamental. Mais do que uma metodologia, representam uma nova forma de compreender a educação. O STEAM reconhece que os problemas contemporâneos exigem simultaneamente conhecimento científico, domínio tecnológico, capacidade de engenharia, criatividade artística e raciocínio matemático.
Como mencionei num artigo anterior, uma de suas maiores contribuições é justamente a inclusão das artes e humanidades. O “A” é o reconhecimento que a imaginação, a criatividade, a comunicação, a sensibilidade estética e a capacidade de inovação são tão importantes quanto o domínio técnico. Em uma época em que a inteligência artificial automatiza tarefas rotineiras com velocidade crescente, a criatividade humana torna-se um dos ativos mais valiosos da educação.
Mas nenhuma transformação curricular produzirá resultados duradouros sem enfrentar talvez o maior desafio da educação brasileira: a formação e a valorização dos professores. Nenhum sistema educacional será maior do que a qualidade de seus docentes. Essa afirmação tornou-se quase um consenso internacional, mas ainda estamos longe de traduzir esse princípio em políticas consistentes.
Vejam só: países que alcançaram elevados níveis de desempenho educacional, como Finlândia, Coreia do Sul, Singapura e diversos membros da OCDE, transformaram a docência em uma carreira socialmente prestigiada e economicamente atrativa. Embora existam diferenças importantes entre seus sistemas educacionais, todos compreenderam que não há educação de excelência sem professores altamente qualificados, selecionados, valorizados e adequadamente remunerados.
No Brasil, a remuneração média dos professores da educação básica permanece significativamente inferior à de profissionais com formação equivalente em outras áreas, dificultando a atração e a permanência de talentos na carreira docente.
As licenciaturas frequentemente enfrentam dificuldades para atrair os melhores estudantes, até mesmo quaisquer estudantes. São cursos vazios, muitos fechando. As condições de trabalho nem sempre são adequadas e as oportunidades de desenvolvimento profissional continuam insuficientes.
O resultado disso é preocupante. A sociedade afirma reconhecer a importância dos professores, mas nem sempre demonstra esse reconhecimento por meio das condições concretas oferecidas à profissão. Torna-se imperioso compreender que não haverá transformação educacional sem tornar a carreira docente uma das mais valorizadas do país.
O professor do século XXI continuará sendo insubstituível, e seu papel tende a evoluir. Ele será menos um transmissor exclusivo de informações e mais orientador, mentor, mediador, pesquisador e formador de pensamento crítico. Tal mudança exigirá também profunda revisão dos modelos de formação inicial e continuada.
Outro tema que merece atenção é a ampliação da educação em tempo integral. Em um contexto marcado por desigualdades sociais, violência, vulnerabilidades familiares e forte influência das redes digitais, torna-se difícil imaginar que quatro horas diárias de escolarização sejam suficientes para enfrentar os desafios contemporâneos. A escola em tempo integral não deve ser entendida apenas como um aumento da carga horária. Temos que construir espaços educativos mais ricos, capazes de integrar atividades culturais, esportivas, científicas, artísticas e de convivência social. Melhor dizendo, de ampliar oportunidades. Brizola e Darcy tentaram isso aqui no Rio de Janeiro. Gostava muito do Darcy, e ele gostava de mim. O Brizola não gostava muito de mim, e reclamava porque eu insistia em continuar no PSDB. Isso jamais me fez deixar de admirar seu apreço pela educação e pela ciência, mas também não concordava muito com ele. Entretanto, não me lembro de termos discutido asperamente, ou de qualquer ação de rancor entre nós.
Ao lado dessas questões, não podemos ignorar um problema frequentemente tratado como externo à educação: a violência. Em diversas regiões do país, escolas interrompem atividades devido a confrontos armados, ameaças e insegurança. Em outras situações, a violência penetra o ambiente escolar, afetando estudantes, professores e famílias. Quando isso acontece, o prejuízo não é apenas pedagógico e é também humano.
Dessa forma, nenhuma reforma educacional alcançará plenamente seus objetivos sem políticas articuladas de segurança pública, assistência social, cultura e desenvolvimento urbano.
A educação do futuro também precisará enfrentar outro desafio, menos discutido: a preservação e renovação da identidade cultural brasileira. Vivemos em uma sociedade cada vez mais conectada globalmente. Jovens têm acesso imediato a conteúdos produzidos em qualquer parte do planeta. Essa abertura representa uma enorme riqueza cultural. Entretanto, ela também impõe a responsabilidade de assegurar que novas gerações conheçam sua própria história, sua literatura, sua música, sua diversidade regional e suas múltiplas matrizes culturais. Podemos dizer que formar cidadãos globais não significa formar indivíduos sem raízes.
Um aspecto particularmente relevante nesse debate diz respeito ao papel da inovação educacional. Os sistemas educacionais brasileiros foram estruturados, ao longo de décadas, para assegurar padrões mínimos de qualidade, estabilidade institucional e segurança regulatória. Essas funções permanecem fundamentais. Entretanto, a velocidade das transformações tecnológicas, sociais e econômicas passou a exigir também maior capacidade de adaptação, experimentação e inovação.
Talvez um dos desafios contemporâneos seja justamente encontrar um equilíbrio mais adequado entre a necessária regulação dos sistemas educacionais e a criação de espaços que permitam o desenvolvimento de novas metodologias, novas formas de organização curricular e novos modelos de aprendizagem.
A educação do século XXI está exigindo instituições capazes não apenas de preservar boas práticas, mas também de aprender continuamente. A construção da escola do futuro também exige ampliar o conjunto de atores envolvidos com a educação básica. Durante muito tempo, atribuímos essa responsabilidade quase exclusivamente aos sistemas educacionais e às secretarias de educação. Talvez isso já não seja suficiente.
Se desejamos construir uma economia baseada no conhecimento, ampliar a competitividade nacional, fortalecer a inovação e recuperar a capacidade produtiva do país, instituições como o CNPq, as Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, as universidades, as entidades empresariais, os institutos de pesquisa e o Sistema S precisam participar mais intensamente desse esforço. A Capes já está fazendo isso.
Penso que a educação básica deixou de ser apenas um tema educacional, e tornou-se um tema estratégico para o desenvolvimento nacional. Essa discussão é particularmente importante quando observamos as dificuldades enfrentadas pela educação técnica e profissional.
Em diversos setores, empresas relatam escassez de técnicos qualificados, enquanto muitos jovens demonstram pouco interesse por carreiras industriais e tecnológicas. Parte desse fenômeno está associada às transformações da própria estrutura produtiva brasileira, que vem sofrendo uma queda forte, em virtude de políticas que não privilegiam uma indústria efetivamente nacional. Hoje temos um programa muito oportuno e interessante, o Nova Indústria Brasil, mas que não olha para a educação em todos os níveis. Uma segunda parte decorre das limitações da educação básica, especialmente em matemática, ciências e linguagem, e uma última resulta da insuficiente articulação entre escolas, instituições de formação profissional e setor produtivo.
Talvez seja necessário reconstruir pontes, se é que elas existiram em alguma época de nossa história.
Nenhum país alcançou elevados níveis de desenvolvimento industrial, tecnológico ou científico sem uma sólida formação técnica intermediária. Alemanha, Coreia do Sul, Itália, China e diversos outros países demonstram que o fortalecimento da educação técnica constitui componente essencial das estratégias de desenvolvimento. No artigo em que falei da pesquisa, citei o exemplo da China.
O Brasil precisará decidir se deseja apenas consumir tecnologias produzidas por outros ou participar ativamente de sua criação. Essa escolha começa muito antes da universidade, e começa na educação básica.
Por fim, talvez seja necessário enfrentar uma questão institucional frequentemente negligenciada, porque o Brasil possui numerosos diagnósticos sobre seus problemas educacionais. O que tem faltado, muitas vezes, é continuidade.
Educação, ciência, tecnologia e inovação continuam excessivamente sujeitas às alternâncias de governo. Projetos são interrompidos, prioridades são redefinidas e políticas de longo prazo tornam-se vulneráveis às conjunturas políticas.
Entretanto, os países que transformaram seus sistemas educacionais seguiram outro caminho. Construíram políticas de Estado, mantiveram prioridades durante décadas, compreenderam que resultados educacionais não surgem em ciclos eleitorais, mas em gerações.
Este é seguramente o maior desafio brasileiro: convencer a sociedade, o Legislativo e o Executivo de que educação não é apenas uma política social, e deve ser entendida como uma política de desenvolvimento, uma política econômica, uma política de redução das desigualdades, de segurança pública, de fortalecimento da democracia.
Costumo dizer que construir uma política educacional forte, consistente competente, democrática d construir o futuro da nação,
Frequentemente discutimos quanto custa investir em educação. Certamente estamos formulando a pergunta errada, pois a questão mais importante é outra:
Quanto custará ao Brasil não investir em educação?
Talvez nenhuma decisão determine tanto o lugar que ocuparemos no mundo nas próximas décadas quanto a resposta que formos capazes de dar a essa pergunta.



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