From Potatoes to Chips: o que a Irlanda e Taiwan ensinam ao mundo
- Mariana Alcantara
- 6 de jun.
- 6 min de leitura
"Education is not the filling of a pail, but the lighting of a fire."
A frase é atribuída ao poeta irlandês William Butler Yeats e talvez nenhuma outra consiga traduzir tão bem a trajetória da Irlanda moderna.
Em outubro de 2014 publiquei um artigo intitulado "From Potatoesto Chips". Nessa época, escrevia semanalmente para a Coluna do Ricardo Noblat, no Jornal O Globo, aqui no de Rio de Janeiro, mas que, como o nome diz, é mundial. Aliás, não sei se vocês já repararam que nós, cariocas, pensamos grande nos nomes dos jornais e osp aulistas pensam localmente, pois lá, os jornais se chamam Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, etc, enquanto aqui temos o Jornal do Brasil, o Globo e outros. Razões históricas, certamente, pois fomos a Capital do País. Eles, entretanto, estão décadas na nossa frente, Todos esses jornais, de lá ou de cá,honram a nossa imprensa e são fundamentais para a manutenção de democracia, construída com muito sacrifício. Voltando ao Noblat, foi uma honra colaborar com ele, pois aprendi mais ainda a conviver naturalmente com as naturais divergências ideológicas, pois afinal de contas, boa parte do nosso povo quer o bem do nosso Brasil. Naquele texto, utilizava uma curiosa coincidência da língua inglesa para descrever a transformação econômica irlandesa. A batata frita industrializada é conhecida como potato chip. Os semicondutores que movimentam computadores, celulares e sistemas de inteligência artificial também são chamados de chips.
A Irlanda havia passado das batatas aos chips.
Mais de uma década depois, relendo aquele artigo, percebo que a metáfora continua viva. Talvez mais viva do que nunca, pelas reações dos governos da China e dos Estados Unidos à questão de Taiwan.
Mas, para compreender a força dessa transformação é preciso voltar ao século XIX.
Começo lembrando que todos os anos, no Dia de Saint Patrick, Nova York veste-se de verde. Milhões de pessoas acompanham o desfile que percorre Manhattan. A majestosa Catedral de Saint Patrick, na Quinta Avenida, entre as ruas 50 e 51, recebe visitantes do mundo inteiro. Para muitos, trata-se apenas de uma celebração cultural. Para outros, católicos como eu, a celebração do Padroeiro da Irlanda. Ele certamente, foi responsável pela historia que vou lembrar a vocês Na realidade, aquela festa conta uma história de sofrimento, coragem e reinvenção.
Em 1845, uma praga atingiu as plantações de batata da Irlanda. Hoje, olhando para trás, pode parecer apenas um problema agrícola. Não era, pois a batata constituía a principal fonte de alimentação de milhões de pessoas. Quando ela desapareceu, desapareceu também a possibilidade de sobrevivência para grande parte da população.
O resultado foi devastador, e cerca de um milhão de irlandeses morreram de fome ou das doenças associadas à desnutrição. Outro milhão deixou sua terra natal e atravessou o Atlântico em busca de uma nova vida. Foi uma das maiores tragédias humanitárias da Europa moderna e a população da Irlanda, então próxima de oito milhões de habitantes, jamais voltou a atingir aquele número.
Muitos daqueles emigrantes desembarcaram em Nova York. Outros seguiram para Boston, Filadélfia, Chicago e diversas cidades americanas, construindo ali novas vidas. E ajudaram a construir também uma nova nação. Este é um problema complicado, pois os governantes atuais se esquecem que seus países foram construídos pelo sangue e pelo trabalho de milhares de emigrantes. É só olharmos para o nosso país, com italianos, portugueses, poloneses, chineses, japoneses, tchecos, austríacos, africanos, os escravizados, e tantos outros. Felizmente, aqui todos são bem-vindos, mas muitos não são tratados como deviam. Os governantes se esquecem que muitos países receberam milhões que não tinham mais condições vida na terra natal. Se eles não tivessem saído, seus países teriam morrido.
O mundo precisa readquirir a consciência de que o amor ao próximo é a condição fundamental para o nosso crescimento. Acho que estamos falando muito de desenvolvimento sustentável, sem pensar na cooperação e na amizade. O que seria do nós sem nossos amigos?

Políticos, empresários, trabalhadores, professores, artistas e engenheiros de origem irlandesa passaram a ocupar posições de destaque na sociedade americana. A diáspora irlandesa transformou-se numa das mais influentes do mundo.
O desfile de Saint Patrick continua sendo, de certa forma, uma homenagem àqueles que partiram.
Mas existe uma segunda história, a daqueles que permaneceram.
Após a independência, conquistada em 1921, a Irlanda continuou,por décadas, distante dos grandes centros econômicos da Europa. Era uma economia relativamente modesta, fortemente vinculada à agricultura e com poucas perspectivas de protagonismo internacional. Nada indicava que aquela pequena ilha do Atlântico Norte se tornaria uma das economias mais dinâmicas do continente europeu.
Mas os irlandeses fizeram uma escolha: Investiram em educação,em professores, em universidades, em ciência, em pesquisa e inovação, e consequentemente, na articulação entre instituições de ensino e setor produtivo.
Compreenderam algo que ainda hoje muitos países relutam em admitir: a riqueza das nações não está apenas nos recursos naturais que possuem, mas principalmente na capacidade de produzir conhecimento.
Ao longo da segunda metade do século XX, a Irlanda construiu uma estratégia consistente de desenvolvimento baseada em capital humano. Dessa forma, as Universidades foram fortalecidas, pesquisadores passaram a desempenhar papel relevante na inovação, empresas encontraram um ambiente favorável para investir , e a educação deixou de ser vista como gasto e passou a ser tratada como investimento estratégico.
Os resultados demoraram um pouco, mas chegaram. Não eram programas deste ou daquele governo, eram objetivos de uma nação. E vieram de forma impressionante.
Hoje, a Irlanda ocupa posição de destaque na economia europeia.Gigantes globais como Intel, Microsoft, Google, Apple, Meta, Amazon, Pfizer e Johnson & Johnson mantêm operações importantes no país. Muitas delas utilizam a Irlanda como base para suas atividades em todo o mercado europeu.
Ali encontram mão de obra qualificada, estabilidade institucional, universidades fortes, ambiente regulatório previsível e uma cultura favorável à inovação. Assim, a Irlanda não se tornou apenas um destino para investimentos. Transformou-se numa plataforma de conhecimento.
Nesse contexto, surge inevitavelmente uma comparação com Taiwan.
À primeira vista, os dois países apresentam semelhanças notáveis.
Ambos são territórios insulares, possuem populações relativamente pequenas, compreenderam que a educação é um recurso estratégico, apostaram na integração à economia global, e que o tamanho geográfico de uma nação não determina sua relevância internacional.
Entretanto, por razões históricas, seguiram caminhos diferentes.
Taiwan tornou-se uma potência industrial. Sua indústria de semicondutores ocupa posição central na economia mundial. Grande parte dos chips mais sofisticados utilizados em inteligência artificial, computação avançada, smartphones e sistemas de defesa depende da capacidade produtiva taiwanesa. Sem Taiwan, boa parte da infraestrutura tecnológica do planeta simplesmente deixaria de funcionar.
A Irlanda escolheu outra rota, pois em vez de liderar a manufatura global de semicondutores, especializou-se em criar um ambiente capaz de atrair empresas, talentos, centros de pesquisa e atividades intensivas em conhecimento.
Taiwan produz alguns dos chips mais avançados do mundo, enquanto a Irlanda tornou-se um dos melhores lugares do planeta para desenvolver negócios baseados neles.
São dois modelos diferentes, mas possuem uma origem comum, centrada na educação, no conhecimento, nas Universidades, na Pesquisa, na Inovação.
Para nós, brasileiros, talvez esta seja a principal lição.
A Irlanda não se transformou porque descobriu petróleo, ou porque encontrou ouro, não se transformou porque possuía recursos naturais extraordinários. Ela transformou-se porque decidiu investir de forma persistente em pessoas: professores, pesquisadores, engenheiro, empreendedores, estudantes de todos os níveis..
A verdadeira revolução irlandesa não ocorreu nas fábricas, mas nas salas de aula. Também não foi nos mercados financeiros, mas nas universidades e nas escolas técnicas. As multinacionais nem sonhavam em ir para lá.
Ocorreu muito antes, quando o país decidiu que educação e conhecimento seriam os pilares de sua estratégia nacional.
A Grande Fome marcou profundamente a história da Irlanda, mas não definiu seu destino. Na verdade, os irlandeses transformaram uma tragédia nacional em um projeto coletivo de reconstrução.
Talvez por isso a Irlanda continue despertando tanta admiração. Ela demonstra que a prosperidade de uma nação não depende apenas daquilo que existe sob seus pés. Depende, sobretudo, daquilo que existe entre os ouvidos de seus cidadãos.
A Irlanda não derrotou a fome produzindo mais batatas, e simproduzindo conhecimento.
Apensando um pouco na evolução dos acontecimentos, posso afirmar, que as batatas alimentaram gerações de irlandeses, mas os chips construíram a Irlanda moderna.
Mas foram a educação, as universidades e o conhecimento quetornaram possível essa extraordinária travessia. Tenho visto pessoas importantes, bem intencionadas, falarem muito em ganhos no agronegócio nas terras raras, na mineração. Eles estão certos em defender as riquezas nacionais. Trabalhei anos com o Fernando Lobo Carneiro, um amigo, o maior nome da Engenharia Brasileira no século XX., e defensor da criação da Petrobrás. São Paulo teve o Telêmaco, o Vitor Mello e o Milton Vargas, e nós cariocas, temos alguns, bem vivos, graças a Deus, como Ernani Diaz, o Bevilacqua. Todos, inclusive os paulistas, foram meus professores, e, semexceção falaram, ou falam, da importância da formação de engenheiros.
Mas onde estão os recursos humanos? A ciência e a tecnologia avançam freneticamente, e indústria e o setor produtivo não terão condições de acompanhar sem engenheiros e técnicos, sem profissionais qualificados. Como reconstruir a indústria brasileira, a nova indústria, sem um esforço nacional de formação de quadros, sem apoiar fortemente os centros de pesquisa e as universidades, todos esmagados?
Esta é a grande diferença entre países que tratam temas tão relevantes como programas de governo, e não como programas de Estado.



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