MABI - A pequena grande amiga que transformou uma casa em um lar
- Paulo Alcantara Gomes

- 25 de jun.
- 3 min de leitura
Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
25 de junho de 2026
Existem animais de estimação. Muitos são companheiros. E existem também aqueles raros seres que atravessam a nossa vida deixando marcas que o tempo jamais consegue apagar.

A Mabi foi um deles. Ela chegou até nós em 2011, depois da grande tragédia das chuvas na Região Serrana do Rio de Janeiro. O Vale do Cuiabá, em Itaipava, era um cenário de destruição. Casas haviam desaparecido, famílias estavam desfeitas e centenas de cães vagavam perdidos, órfãos ou simplesmente abandonados.
Fomos até lá movidos por um desejo simples: oferecer um lar a quem havia perdido tudo. Entre tantos cães, a Eva escolheu duas pequenas companheiras: Mabi e Helga.
A alegria durou pouco. A Helga chegou trazendo, sem que soubéssemos, a cinomose. Lutou apenas quinze dias. Partiu cedo demais. Assim, a Mabi ficou sozinha.
Na verdade, não era apenas ela que estava sozinha. Nós também estávamos, pois, pouco antes, nossa família canina havia sido devastada. O Dunga — o cachorro que parecia conversar conosco —, a Tobie, nossa inesquecível “Loura do Itanhangá”, a Teca, o Chico e o Gordo, tinham partido, um após outro, quase todos vencidos pelo câncer. Parecia que a casa havia perdido a capacidade de sorrir.
Foi então que aquela pequena vira-lata resolveu assumir a missão de devolver alegria à nossa família. Eu costumava brincar dizendo que ela pertencia à raríssima raça “Stray dogs of the Hills”, pois afinal tinha vindo das montanhas de Petrópolis. Era uma brincadeira que escondia uma verdade: para nós, uma vez que ela era absolutamente única. Vieram quinze anos de felicidade.
Alguns meses depois da chegada da Mabi, vieram a Tina e o Guri, outro grande amigo, e que também partiu há cerca de um mês, todos da mesma “raça”( já escrevi sobre ele aqui no blog). Formou-se uma pequena comunidade de afeto onde camas, sofás e qualquer regra de etiqueta deixavam de existir. A casa era deles.
O Guri especializou-se em subir nas mesas para roubar comida. A Mabi exercia naturalmente sua liderança, sem jamais precisar demonstrá-la. Todas as manhãs, bem cedo, havia uma cerimônia que nunca precisou ser combinada: a descida pela escada, a corrida pelo jardim, os latidos, os passarinhos levantando voo e um gato teimoso equilibrado sobre o muro, fingindo não ter medo de ninguém.
Depois vinha o momento que eu mais esperava: o beijo coletivo na “vovó” e no “vovô”, sempre iniciado pela Mabi.
São esses pequenos rituais que constroem uma vida. Com o passar dos anos, a velhice chegou também para eles. Vieram as doenças, os tratamentos, as cirurgias e, mais uma vez, o câncer entrou em nossa casa, tanto para eles como para mim.

Mas a Mabi jamais perdeu a coragem. Era valente e determinada. Parecia enfrentar cada dificuldade com uma dignidade que muitos seres humanos jamais alcançam. Lutou durante anos. Resistiu muito mais do que imaginávamos possível. Até que, há alguns meses, começou lentamente a entregar as armas.
Ontem precisou ser internada e hoje adormeceu para sempre.
Quem nunca amou um animal talvez não compreenda o tamanho dessa ausência. Não se perde apenas um cachorro. Perde-se uma presença constante, um olhar que entendia nossos silêncios, uma alegria que não fazia perguntas nem exigia explicações. Perde-se um membro da família.
Não tenho dúvidas que o amor deles por nós acabou por reforçar o meu amor pela Eva, que tanto tem me apoiado e é, sem dúvida, a grande líder dessa família, agora menor, agora menor e triste.
Gosto muito dos fados portugueses. Há um verso antigo de António dos Santos que sempre me emocionou:
“Quem morre, não sofre mais;mas quem parte é dor demais.É bem pior que morrer.”
Hoje compreendo essas palavras de maneira diferente. Quem sofre somos nós. A Mabi, tenho certeza, já corre livre pelos jardins do Paraíso. Encontrou novamente o Guri, o Dunga, a Tobie, a Teca, o Gordo, o Chico e tantos outros companheiros que fizeram parte da nossa história.
Consigo imaginá-los correndo pelas colinas verdes, sem dor, sem limitações, como se o tempo jamais tivesse existido.

E gosto de acreditar que, de vez em quando, olham para nós, pois ainda não chegou a nossa hora, já que existem livros para escrever, projetos para concluir, alunos para orientar, amigos para abraçar e batalhas para vencer.
Talvez seja exatamente isso que eles estejam nos dizendo: “Continuem.” Obrigado, querida Mabi. Obrigado por quinze anos de amor incondicional.Obrigado pelos beijos da manhã, pelas corridas no jardim, pela companhia silenciosa e pela extraordinária capacidade de fazer uma casa feliz.
Até um dia.
Tenho esperança de que, quando esse dia chegar, ouvirei novamente passos correndo em minha direção.



Comentários