Meu GURI: Uma história que quase ficou por contar: um amor que o tempo não levará
- Paulo Alcantara Gomes

- 25 de mai.
- 4 min de leitura
Hoje, uma das maiores tristezas da minha já longa vida resolveu sentar-se silenciosamente ao meu lado. Meu Guri decidiu partir.
Há dores que chegam fazendo barulho. Outras, porém, entram devagar, sentam-se dentro da alma e ali permanecem, quietas, olhando-nos sem dizer palavra. A perda do Guri é assim.
Nossa história começou de modo improvável, como costumam começar os grandes encontros da vida.

Era um dia chuvoso de setembro de 2011. Eu chegava à Universidade quando, ainda na rua, deparei-me com um pequeno cachorro preto, encolhido sobre a calçada, tão imóvel e abandonado que parecia já ter desistido do mundo. Estava sujo, frágil, quase invisível aos olhos apressados dos outros.
Mas havia algo nele. Talvez um pedido silencioso. Talvez uma esperança teimosa.
Pedi ao André uma caixa para socorrê-lo. André, olhando aquele pequeno corpo inerte, disse que ele estava morto. Mas alguma coisa dentro de mim recusou aquela sentença. Insisti: “Não, ele ainda está vivo”.
E estava. Levamo-lo à clínica veterinária da Universidade, que o acolheu durante algumas semanas. Disseram-me, porém, que eu precisaria encontrar abrigo para aquele pequeno sobrevivente. Então, numa quinta-feira já quase noite, veio a ligação: a clínica seria fechada para dedetização e ele precisava sair imediatamente.
Não tive escolha. Ou talvez tenha sido a vida escolhendo por nós.
Levei-o para casa. Já tínhamos duas pequenas guerreiras resgatadas das ruas, Mabi e Tina, e houve alguma resistência inicial da Eva — rapidamente vencida pelo jeito insistente, amoroso e quase encantador daquele recém-chegado. Ela advertiu, com a prudência de quem conhece os perigos do afeto: “Só por pouco tempo”.
Mas o amor raramente obedece aos nossos prazos. E assim nasceu o Guri.
Nome dado pela Eva, que parecia já compreender que aquele vira-lata pretinho não seria apenas mais um cachorro em nossa casa, mas alguém que passaria a ocupar um lugar definitivo em nossos corações.
Aos poucos, foi se tornando indispensável. Reclamão, falante, sempre latindo como se tivesse opiniões firmes sobre tudo, Guri era, ao mesmo tempo, um companheiro adorável e um amigo fraterno. Durante quase dezesseis anos, preencheu a casa com sua presença — e a nossa vida com uma alegria cotidiana, dessas pequenas, mas fundamentais.
Transformou-se na fiel sombra da Eva, como ela mesma gostava de dizer, e num companheiro precioso para mim. Dividimos alegrias, brincadeiras, pequenas implicâncias, silêncios e até a cama.
Mas talvez o que eu mais levarei comigo seja o jeito como ele me olhava.
Olho no olho. Com uma intensidade difícil de explicar. Como se quisesse conversar sem palavras. Como se me dissesse, todos os dias, que pertencíamos um ao outro nessa breve travessia chamada vida.
Guri tinha seus pecados — e que doces pecados.
Era ladrão de comida. Aproximava-se sorrateiro dos pratos com a astúcia de quem se julgava injustiçado pela divisão do jantar. Subia na mesa, como um pirata invasor, na horas das refeições, provocando grande confusão. Ainda no último sábado, já velho, cansado e quase sem forças, tentou puxar a toalha da mesa para alcançar alguma comida.
Sorri. Porque naquele gesto ainda estava inteiro o meu velho companheiro.
E eu já havia me tornado seu cúmplice. Todas as manhãs ele se sentava ao meu lado, esperando o nosso pequeno ritual: dividir o pão. Agora, as manhãs me parecerão grandes demais.

Não haverá mais aquele companheiro silencioso ao meu lado, esperando sua parte do mundo.
Também era o inimigo número um dos passarinhos do jardim. Bastava um pousar e lá ia o Guri, como um guardião feroz do território. Houve até o memorável episódio do ouriço — batalha perdida, que terminou na emergência veterinária, cercado de espinhos e dignidade ferida.
Meu pequeno guerreiro. Tornou-se também personagem de um dos livros da Ana Paula, minha filha, alcançando uma inesperada notoriedade entre crianças das escolas do Rio de Janeiro.
Mas o tempo — ah, o tempo — não faz acordos com ninguém. É implacável.
A velhice chegou para nós dois, quase como um espelho cruel. Guri enfrentava um câncer no fígado, espalhado em metástases. Eu, um câncer no pâncreas, também acompanhado de suas sombras.
De algum modo, caminhávamos juntos nessa mesma estrada difícil. Lutamos.
Com medo, dores, limitações — mas também com coragem. Resistimos bravamente, movidos pela mesma vontade imensa de viver.
Talvez por isso tenhamos criado entre nós um pacto silencioso: partir juntos. Mas Deus, em Sua misteriosa maneira de organizar despedidas, decidiu diferente.
E ele foi antes, e confesso que sinto um vazio enorme.
Há pouco dizia à Eva que, no fundo, nossa família somos nós dois e nossos amigos de quatro patas. A vida começa cercada por pais, irmãos, filhos, risos, movimento. Depois os filhos crescem, os pais se despedem, os netos seguem seus próprios caminhos, obedecendo ao ciclo inevitável do tempo.
E nós ficamos. Mais silenciosos. Mais lembrança do que futuro, embora sendo apoiados e quase monitorados pelos queridos filhos. Eu tenho muita sorte, porque a Mariana trabalha comigo, estamos juntos todos os dias, com brigas e discussões estimulantes.
Não há nada de errado nisso. É apenas a vida sendo vida.
Como não gosto muito de chorar — embora hoje esteja falhando miseravelmente nesse propósito — resolvi contar um pouco da minha história com ele.
Talvez porque escrever seja uma forma de permanecer. Ou de não deixar partir completamente quem tanto amamos.

O Guri continuará vivendo dentro de mim: nas lembranças, nos hábitos, nos silêncios da manhã, nas migalhas de pão que faltarão sobre a mesa, e nesse estranho impulso de ainda procurá-lo com os olhos pela casa.
Ele me fará muita falta. Uma falta imensa, mas existe uma certeza que me consola: o tempo, esse mesmo que agora machuca, também haverá de nos reunir. E talvez, muito em breve, estejamos caminhando novamente pelos verdes campos do paraíso.
Imagino o Guri correndo na frente, jovem outra vez, saudável, talvez espantando passarinhos celestiais — e certamente distribuindo autógrafos, afinal, poucos cães podem dizer que foram protagonistas de um livro.
Eu fico aqui. Chorando, sim. Rezando também.
E agradecendo pela dádiva de ter conhecido meu doce ladrãozinho de comida, meu companheiro de manhãs, meu amigo de olhar profundo — aquele que me fitava olho no olho, como se soubesse de tudo o que eu nunca precisei dizer.
Sentirei uma saudade impossível de medir. Mas o amor, esse amor, não morre.
Ele apenas aprende a morar na ausência.



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