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O Salgueiro Maia e a Celeste Caeiro

  • Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
    Paulo Alcantara Gomes
  • 27 de abr.
  • 3 min de leitura

O dia 25 de abril marca a minha vida já há décadas. Em primeiro lugar, porque nele celebramos a revolução dos cravos, em Portugal, e o fim do Nazifascismo na Itália. Nos dois países, eu vivi momentos muito importantes, que marcaram meus sentimentos, minha profissão e o meu futuro. 

 

Além disso, é o dia de São Marcos, o evangelista, que tanto me ajuda e me protege.

 

Decorridos 52 anos, continuo a reviver a revolução dos cravos como se fosse hoje. Lembro da minha perplexidade com a força do povo português, sofrido e encurralado por décadas de uma ditadura cruel, da alegria se espalhando pelas ruas, do sentimento de liberdade que renasceu em cada aldeia, todas feridas pelos filhos que eram obrigados a deixar vidas e famílias para trás, emigrando para outros países, do grito de liberdade em uníssono, na voz de cada cidadão. 

 

Lembro da Celeste Caeiro distribuindo cravos pelo Chiado, dos soldados os colocando nos canos dos fuzis. Isto me marcará eternamente. A Celeste, muito humilde, era funcionária de um restaurante na baixa de Lisboa, que funcionava na Rua Braancamp, e que permaneceu fechado no dia 25 de abril, por causa do movimento dos capitães. Mas o restaurante comemorava o seu primeiro aniversário e havia comprado cravos para distribuir, pois Portugal é pródigo em cravos na primavera. Como não havia o que fazer com eles, o gerente os distribuiu entre os funcionários. A Celeste saiu com alguns e, ainda no Rocio,  encontrou os tanques que estavam subindo para a praça onde ficava a pide, que sempre escrevo com letras minúsculas pelo mal que fez ao povo português. 

 

Aproximando-se de um dos tanques, perguntou o que se passava, ao que um soldado lhe respondeu: “Nós vamos para o Carmo para deter o Marcelo Caetano. Isto é uma revolução!”. O soldado pediu-lhe, ainda, um cigarro, mas Celeste não tinha. Celeste queria comprar alguma coisa para os libertadores, qualquer coisa para comer ou beber, mas as lojas estavam todas fechadas. Assim, deu-lhes as únicas coisas que tinha para oferecer:  os cravos, dizendo a cada um “Se quiser, tome, um cravo oferece-se a qualquer pessoa”. Celeste foi dando cravos aos soldados que ia encontrando. 

 

Eu trabalhava em Coimbra, como professor da Universidade, nos primeiros dias da semana, e sempre partia para Lisboa toda quinta-feira. Talvez a Ana Paula e a Mariana, minhas filhas, ambas portuguesas, não se lembrem, mas elas estavam com a Lígia, mãe delas, infelizmente já falecida, em Vila da Feira, com os parentes. Iríamos nos encontrar no final da semana. 

 

Por volta de meia-noite, ouvi na rádio Renascença um primeiro aviso, a música “E depois do Adeus”, cantada pelo Paulo de Carvalho. Não era normal que a rádio Renascença tocasse aquela música à meia-noite. Entendi menos ainda quando começaram a tocar “Grândola Vila Morena”, música do Zeca Afonso, bastante combatido pelo regime. Creio que Grândola estava censurada.  

 

Madrugada ainda, peguei o trem para Lisboa, e aí comecei a saber o que estava a acontecer. A alegria de todos era contagiante. Quando cheguei a Lisboa, já no Rocio, vi o que jamais pensei que pudesse acontecer: estava vivendo, eu, um simples engenheiro brasileiro, uma revolução que partiu dos capitães, mas logo se transformou na revolução do povo. 

 

Ao subir a ladeira do Carmo e a rua Garrett, vi o Salgueiro Maia, o grande líder do 25 de abril, a dar ordens para os jovens soldados. Era incrível, irradiando liberdade e amor ao seu país. 

 

Ninguém se entendia, pois todos  estavam do mesmo lado, e a gritaria era enorme, todos se abraçando e se beijando. Naquele momento, não dava para perceber a dimensão do que aquele capitão estava fazendo.

 

Os capitães foram para a rua, pois, como disse o Salgueiro Maia, um jovem da Cavalaria, na saída das tropas: “Meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado. Os estados socialistas, os estados capitalistas e o estado a que chegamos. Ora, nesta noite solene, vamos acabar com o estado a que chegamos! De maneira que, quem quiser vir comigo, vamos para Lisboa e acabamos com isto. Quem for voluntário, sai e forma. Quem não quiser sair, fica aqui!”.

 

Assim eu vi o 25 de abril. Os meses que se seguiram foram conturbados e tensos, caíram governos, alguns foram exilados, outros se afastaram. Foram momentos em que refleti muito sobre política, ideologias, liberdade, até encontrar meu próprio rumo. 

 

Ao fim e ao cabo. Portugal se equilibrou, cresceu, modernizou-se, e hoje é uma nação pujante e maravilhosa, que eu amo, se  é que amar tem medida, quase tanto como o meu querido Brasil. 

 

O tempo passa e os mais jovens se esquecem daqueles que fizeram muito por nós. Por isso, sempre é bom lembrar o Capitão Salgueiro Maia, o grande líder e capitão de abril, e a Celeste Caieiro, a Senhora dos Cravos, com sua humildade, que trouxe paz à revolução portuguesa. Aos dois, minha reverência eterna. 

 

Ao povo português, meu abraço caloroso.

 

 
 
 

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