Padre Hortal – Cinco meses de ausência
- Paulo Alcantara Gomes

- 3 de jul.
- 10 min de leitura
Paulo Alcantara Gomes
Engenheiro Civil
29 de junho de 2026
Caros amigos,
No último dia 2 de julho completaram-se cinco meses da partida do Padre Jesus Hortal Sánchez, o nosso querido Padre Hortal.
Ao longo da vida tive o privilégio de conhecer grandes professores, pesquisadores brilhantes, dirigentes universitários notáveis e homens públicos que deixaram marcas profundas na educação brasileira. Poucos, entretanto, me impressionaram tanto quanto o Padre Hortal. Era um homem de inteligência excepcional, firme nas convicções, dono de um humor refinado e de uma extraordinária capacidade de fazer amigos.
Para explicar essa amizade, porém, preciso voltar mais de sessenta anos no tempo, ao meu primeiro contato com a PUC-Rio.
Em 1962 eu concluía o ensino médio no Colégio Militar e me preparava para os vestibulares de Engenharia. Até então imaginava seguir a tradição da família de meu avô e ingressar na Marinha. Durante uma inspeção médica de rotina, o médico perguntou o que pretendia fazer depois da formatura.
Respondi, talvez com a autoconfiança — ou a arrogância — típica dos dezoito anos: vou para a Escola Naval. Ele sorriu e respondeu com uma serenidade quase cruel— não vai, não. Você tem pé chato. No exame médico da Escola Naval você não passa.
Foi um choque. Pela primeira vez percebi que a vida nem sempre segue os planos que fazemos. Na verdade, minha família imaginava outro destino para mim. Meu pai, minha mãe e meu irmão eram médicos, e seria natural que eu também seguisse a Medicina. Mas a Engenharia já havia me conquistado.
Como o Colégio Militar possuía uma excelente preparação para os vestibulares, fui para a turma destinada às engenharias e resolvi prestar exame para a Escola Politécnica da PUC-Rio, além da então Universidade do Brasil.
Foi nesse momento que tive o primeiro contato com a PUC, e confesso que fiquei encantado. O campus era — e continua sendo — um dos lugares mais bonitos do Rio de Janeiro. Rapidamente descobri que não era apenas o campus que chamava a atenção. As alunas também eram estonteantes. Aos dezoito anos, esse era um argumento pedagógico de enorme importância.
Passei no vestibular e comemorei muito. Também fui aprovado na Universidade do Brasil — hoje UFRJ —, mas as aulas da PUC começaram antes e lá permaneci durante pouco mais de dois meses. Foram apenas algumas semanas, suficientes, porém, para conhecer uma instituição extraordinária.
Tive aulas com professores inesquecíveis, como L. P. Maia, cujo livro disputava espaço nas bibliotecas com o do meu pai, com Roberto Peixoto, além do brilhante Ademar Fonseca, um dos. melhores professores de Mecânica que conheci. Eram mestres que ensinavam muito mais do que fórmulas: ensinavam a pensar como engenheiros.
Eu já sabia que minha permanência ali seria breve. Meu pai, extremamente cuidadoso com as despesas da família, dificilmente aceitaria manter um filho numa universidade particular quando a Universidade do Brasil oferecia um dos melhores cursos de Engenharia do país.
Assim aconteceu. Logo me transferi para a velha Escola Nacional de Engenharia, a minha inesquecível ENE, que continua sendo uma das grandes paixões da minha vida. Ainda hoje não consigo entender por que alguém resolveu trocar aquele nome histórico por Escola Politécnica. Tenho certeza de que essa ideia não nasceu de um antigo aluno da ENE.
A mudança, entretanto, nunca significou um rompimento com a PUC. Ao contrário, ao longo dos anos, aquela convivência inicial transformou-se numa relação de profundo respeito e enorme admiração por uma universidade que sempre exerceu papel decisivo na formação da inteligência brasileira.
Naquela época, porém, eu ainda não imaginava que a PUC me daria muito mais do que excelentes professores. Ela me apresentaria alguns dos amigos mais importantes da minha vida.
Ao deixar a PUC, nossa convivência passou a ser esporádica. Muitos dos meus amigos do Colégio Militar haviam permanecido ali, e era através deles que continuava acompanhando, à distância, a vida da Universidade. Entre eles estavam Scavarda, Augusto, infelizmente já falecidos, o Alcyr e tantos outros que fizeram parte daquela geração.
Anos depois, já no mestrado da COPPE, os caminhos voltaram naturalmente a se cruzar. A pós-graduação em Engenharia ainda dava seus primeiros passos no Brasil, e COPPE e PUC ocupavam posições de destaque naquele movimento pioneiro que transformaria definitivamente a pesquisa científica no país.
Na COPPE tive o privilégio de conviver com Alberto Coimbra. Na PUC, nomes como Candiota, Lopes Périra, e o Ferrari conduziam uma escola igualmente respeitada. Também conheci Alceu Pinho Filho, outro ex-aluno do Colégio Militar, cuja competência administrativa e científica sempre admirei. Anos mais tarde, quando assumi a Diretoria da COPPE, muitas vezes recorri aos seus relatórios como referência para preparar a documentação encaminhada à FINEP.
Naquela época, a FINEP era presidida por José Pelúcio Ferreira, um dos maiores visionários que conheci. Sempre digo, sem exagerar, que Pelúcio ajudou a “inventar” a moderna política brasileira de Ciência, Tecnologia e Inovação. Seu legado permanece vivo até hoje.
Percebia, assim, que minha relação com a PUC nunca havia sido interrompida. Ela apenas mudara de forma. Continuava encontrando professores, pesquisadores e dirigentes ligados à Universidade, embora praticamente todos fossem leigos, como eu.
O contato mais próximo com os jesuítas começou somente em 1992. Naquele ano fomos nomeados para o então Conselho Federal de Educação o Padre Laércio, Reitor da PUC-Rio, e eu. Durante vários anos passamos uma semana por mês em Brasília, participando das longas sessões do Conselho. Naturalmente, acabamos nos tornando vizinhos de mesa, e almoços e jantares.
As viagens de volta ao Rio também eram sempre as mesmas. Quinta-feira, voo das dezenove horas. Foi num desses voos que observei um hábito curioso: enquanto a maioria de nós tentava descansar ou colocava a conversa em dia, o Padre Laércio aproveitava o tempo para ler a liturgia do dia seguinte ou algum trecho da Bíblia. Então, meu raciocínio foi rigorosamente científico.
Se o avião caísse e eu estivesse sentado ao lado de um padre, minhas chances de chegar ao céu certamente aumentariam. Era uma simples aplicação da aritmética. Nunca tive animação para verificar se a teoria possuía fundamentação teológica.
A partir daquele dia, passei a escolher sistematicamente a poltrona ao seu lado e, entre uma viagem e outra nasceu uma amizade sincera.
Conversávamos sobre universidades, educação, política universitária, ciência, a Companhia de Jesus e, naturalmente, sobre a PUC-Rio. Sem qualquer tentativa de convencimento, o Padre Laércio foi, pouco a pouco, despertando em mim o desejo de reencontrar a Igreja Católica, da qual eu havia me afastado durante muitos anos.
Sua maneira de evangelizar era discreta. Nunca pregava. Nunca censurava. Nunca fazia cobranças. Conversava. Dessa forma, exatamente por isso suas palavras encontrassem espaço.
Nossa amizade tornou-se tão próxima que ele passou a frequentar os almoços de domingo na casa de meu pai, em encontros deliciosos. Meu pai, Francisco, recebia os amigos como poucos. O almoço invariavelmente terminava em longas conversas sobre política, universidade, futebol e história. Enquanto ele apreciava seu inseparável uísque, o Padre Laércio permanecia fiel ao Campari. Até hoje alimento uma enorme curiosidade que nunca consegui esclarecer: por que tantos jesuítas gostam de Campari?
Foram anos muito felizes. Depois encerramos nossos mandatos. O Padre Laércio deixou a Reitoria da PUC, eu concluí minha gestão na UFRJ e, como tantas vezes acontece na vida, nossos caminhos acabaram se afastando. Tempos depois soube que ele havia se recolhido a uma casa dos jesuítas em Minas Gerais.

Mas, sem que eu percebesse, aquela amizade havia preparado um novo encontro com um padre que marcaria definitivamente a minha vida. Seu nome era Jesus Hortal Sánchez. Conheci o Padre Hortal por intermédio de outro grande amigo, o Padre Pedro Ferreira, integrante da mantenedora da PUC-Rio.
Pedro era daqueles homens que aproximavam pessoas. Foi ele quem me apresentou ao Hortal e propus seu nome para integrar, como membro titular, a Academia Nacional de Engenharia. A indicação foi recebida com entusiasmo, pois todos conheciam sua extraordinária inteligência e sua contribuição para o ensino superior brasileiro. O Pedro fez o doutorado em Engenharia Elétrica na COPPE.
A primeira impressão que o Hortal causava nem sempre correspondia à realidade, pois parecia sério, até carrancudo. Bastavam, porém, alguns minutos de conversa para aparecer um homem afável, culto, dono de um humor finíssimo e de uma enorme generosidade.
Era um espanhol autêntico, brigão como ninguém, que defendia suas ideias com firmeza, gostava de uma boa discussão, jamais fugia de um debate intelectual, mas fazia tudo terminar com um sorriso e muitos abraços. Nunca confundia divergência com inimizade.
Nossa amizade cresceu rapidamente. Passamos a nos encontrar no Conselho Estadual de Educação, na Rede de Tecnologia do Rio de Janeiro, em eventos do Sebrae e em inúmeras reuniões ligadas à educação superior. Pouco tempo depois, ele também passou a frequentar os tradicionais almoços de domingo na casa de meu pai.
Ao chegar, sua saudação era sempre a mesma: Ô, Francisco!
Meu pai respondia imediatamente, e a conversa começava como se os dois fossem amigos de infância. Era uma alegria vê-los juntos. Havia, entretanto, um problema aparentemente insolúvel, pois o Hortal era rubro-negro apaixonado, e lá em casa éramos todos tricolores.
Durante anos convivemos pacificamente graças a um acordo tácito: futebol só podia ser discutido depois do almoço e, de preferência, quando o café já estivesse servido. Quem mais tarde ajudaria a manter a paz seria outro jesuíta extraordinário, o Padre Josafá, igualmente tricolor.
Viajar com o Hortal era um espetáculo à parte. Numa missão ao Canadá, liderada pelo governador Marcelo Alencar, reunimos um pequeno grupo de dirigentes universitários e amigos.
Como acontece em quase todas essas viagens, depois do jantar acabávamos reunidos para conversar. Numa daquelas noites, já em Quebec, ocupamos o quarto de um dos integrantes da missão e permanecemos ali até altas horas.
Em determinado momento, o Hortal levantou-se e anunciou:
— Amanhã cedo vou celebrar a missa aqui no quarto. Preciso de alguém para ajudar.
Fez uma breve pausa, olhou para mim e completou, com a maior naturalidade: qualquer um pode ser coroinha, menos o Paulo, porque ele é herege. Todos caíram na gargalhada. Éramos cinco; o Hortal, o Francis Bogossian, o Eloy Fernandez, o Roberto Bezerra, e eu. O Coroinha foi o Francis.
Na manhã seguinte, às seis e meia, para surpresa dele, estávamos todos pontualmente à porta do quarto, inclusive o herege. A missa foi celebrada, uma celebração simples, silenciosa e profundamente bonita. Anos depois compreendi que, mesmo permanecendo sentado, talvez eu já estivesse iniciando, sem perceber, o caminho de volta.
Outra viagem produziu uma das cenas mais divertidas de nossa convivência. Estávamos em Sophia Antipolis, no sul da França, participando de uma reunião internacional. Terminado o almoço, caminhei naturalmente para o carro e sentei-me ao volante.
O Hortal abriu a porta, olhou para mim e decretou: Você desce. Nem tive tempo de perguntar por quê. Voltou-se para os demais e disse: Quem dirige é a Eva. Ela não bebeu. A decisão foi recebida sem direito a recurso, e obedeci.
Hoje reconheço que foi uma demonstração de bom senso e de amizade. O Hortal cuidava das pessoas até nos pequenos detalhes.
Mas nenhuma história traduz melhor seu senso de humor do que a que aconteceu poucos dias depois, quando jantávamos num restaurante e o mundo inteiro acompanhava, pela televisão, o conclave que escolheria o sucessor de São João Paulo II.
Entre uma conversa e outra, alguém lançou uma provocação. E se elegêssemos o Hortal Papa? A proposta foi aprovada por unanimidade, e, em poucos segundos, o Padre Hortal havia sido eleito por aclamação.
Um de nós, mais acostumado ao Francês, certamente um herege, resolveu comunicar de mesa em mesa que ali se encontrava o novo Papa. O efeito foi imediato, e quando nos levantamos para sair, o restaurante inteiro aplaudia. O Hortal saiu ovacionado, rindo e reclamando do herege ter feito essa brincadeira. Você me paga, disse ele.
O fato é que aquela brincadeira despertou em mim uma reflexão inesperada. Naquele pequeno restaurante do sul da França percebi, talvez pela primeira vez com toda a intensidade, a força simbólica da Igreja Católica. Bastara uma frase dita em tom de brincadeira para mobilizar pessoas de diferentes países, culturas e idiomas. Sem perceber, eu estava começando a reencontrar a fé.
Ao longo dos anos aprendi muito com o Padre Hortal. Aprendi observando. Não eram grandes sermões nem longas lições de teologia. Eram atitudes.
Lembro-me, por exemplo, de uma solenidade no Conselho Estadual de Educação em que ele recebeu uma medalha. Em seu discurso falou da necessidade de construir pontes — pontes entre pessoas, entre instituições, entre diferentes formas de pensar e, sobretudo, entre os homens e Deus.
Era uma imagem simples. Mas nunca mais a esqueci. Talvez porque o próprio Hortal fosse, ele mesmo, uma ponte.
A última vez que esteve em nossa casa foi depois da partida de meu pai. Minha irmã também já havia falecido, e meu irmão nos deixara muitos anos antes. A casa continuava a mesma, mas carregava inevitavelmente o silêncio das ausências.
Foi então que Eva teve uma ideia maravilhosa. Propôs que déssemos ao nosso jardim um nome permanente em homenagem ao amigo, e assim, nasceu o Rincón del Padre Hortal.
Mandamos preparar uma pequena placa, reunimos alguns amigos para um jantar e fizemos uma singela inauguração. A placa permanece até hoje no jardim, pois, muito mais do que uma homenagem, ela representa uma amizade.
Foi naquele encontro que convivi mais demoradamente com o Padre Josafá. Eu já o conhecia, naturalmente, mas ali descobri outro jesuíta extraordinário.
Botânico apaixonado, percorreu nosso jardim quase planta por planta, explicando espécies, contando histórias, sugerindo pequenas mudanças. Conversávamos sobre árvores, universidades, futebol — felizmente ele também é tricolor, sobre a vida e, naturalmente, sobre as universidades.
Mais tarde acompanharia sua brilhante gestão como Reitor à frente da PUC-Rio. Os anos passaram.
Em 2023, Deus resolveu aproximar-me novamente da Companhia de Jesus, e conheci o Padre Arnaldo nas missas celebradas na Fundação Cesgranrio. Sua maneira de anunciar o Evangelho é diferente, porque fala com simplicidade, alegria e entusiasmo. Suas homilias aproximam as pessoas da Palavra de Deus sem qualquer artificialidade. Ao final de cada missa, saímos mais leves do que entramos.
Foi ele, juntamente com minha filha Mariana, que jamais desistiu de mim, que completaram esse caminho de reencontro com a Igreja Católica. Hoje, aos oitenta e um anos, compreendo melhor aquilo que durante muito tempo levei décadas para perceber.
Rezar não é um dever, mas um privilégio. Todas as manhãs procuro agradecer pela vida extraordinária que Deus me concedeu, pela família que me sustentou nos momentos difíceis, pela Eva, que me suporta, pelos meus filhos e netos queridos e maravilhosos, pelos amigos que colocou em meu caminho e pelas oportunidades que tive de servir, ainda que modestamente, à educação, à engenharia e ao Brasil.
Quando olho para trás, percebo que esse reencontro com a fé tem muitos responsáveis. O Laércio, com sua serenidade, o Hortal, com sua inteligência e seu humor, o Arnaldo, com sua capacidade de tornar o Evangelho próximo de todos, seu brilhantismo e sua competência acadêmica, o Erick, da Medalha Milagrosa, um jovem que sabe estimular e motivar para a religião, o Dieguez, da Paróquia São Judas Tadeu, que me acolhe nos momentos difíceis, e o Allan, da Paróquia São Marcos. Não posso esquecer o Padre Jorge Lutz, que vi uma única vez, mas foi determinante para o meu reencontro com Deus. De fato, cada um deles ajudou, à sua maneira, a reconstruir uma parte da minha caminhada.
Mas o Hortal ocupou um lugar muito especial, pois nunca tentou convencer ninguém, nunca levantou a voz, e jamais fez da religião um instrumento de julgamento. O Hortal evangelizava vivendo.
Talvez seja essa a Igreja que mais aprendi a admirar, a Igreja do diálogo, da inteligência, da alegria, da misericórdia e da solidariedade. A Igreja que acolhe antes de condenar; que constrói pontes em vez de muros; que compreende nossas fraquezas e nos lembra, todos os dias, que Deus nunca desiste de nós.
Era essa a Igreja que o Padre Hortal representava com extraordinária naturalidade. Cinco meses depois de sua partida, a saudade permanece, e vai permanecer para sempre. Entretanto, permanecerá, sobretudo, a gratidão.

Algumas pessoas não passam simplesmente por nossas vidas. Elas, na verdade, ajudam a transformá-las. O Hortal foi uma dessas pessoas. Que Deus o tenha recebido em Sua paz, e que continue inspirando todos aqueles que tiveram o privilégio de chamá-lo de amigos.
Viva o Hortal!



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