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Ruy Carlos de Camargo Vieira: um pioneiro da moderna educação em engenharia no Brasil

  • Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
    Paulo Alcantara Gomes
  • 23 de jul.
  • 3 min de leitura

Paulo AlcantaraGom

Professor Emérito da UFRJ, Engenheiro Civil

 18 de julho de 2026


Há pessoas que constroem pontes, barragens, estradas e edifícios. Outras constroem instituições. Raríssimas são aquelas que transformam a maneira como um país forma seus engenheiros. O professor Ruy Carlos de Camargo Vieira pertence a esse grupo.


Sua morte representa uma perda irreparável para a engenharia e para a educação brasileiras. Embora sua atuação científica tenha sido notável e sua carreira universitária exemplar, seu maior legado foi ter compreendido, antes de muitos, que o desenvolvimento de um país depende, em grande medida, da qualidade da formação de seus engenheiros.


Natural de São Carlos, formou-se engenheiro mecânico e eletricista pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1953. Iniciou sua carreira docente no Instituto Tecnológico de Aeronáutica e, em seguida, ingressou na Escola de Engenharia de São Carlos da USP, onde construiu uma trajetória acadêmica brilhante, tornando-se professor catedrático e participando da implantação da pós-graduação e da criação do Centro de Recursos Hídricos e Ecologia Aplicada. Foi professor emérito da USP.


Entretanto, sua contribuição ultrapassou em muito os limites de sua universidade. Ao integrar a Comissão de Especialistas do Ministério da Educação, a primeira, teve papel decisivo na elaboração da Resolução nº 48, de 1976, do então Conselho Federal de Educação, documento que promoveu a mais profunda reformulação curricular da engenharia brasileira desde a regulamentação da profissão.


Foi nessa resolução que surgiu, pela primeira vez, uma concepção moderna para a organização dos cursos de engenharia. Ruy Vieira rompeu com currículos rígidos e excessivamente compartimentados, estabelecendo uma estrutura baseada em três grandes núcleos de formação: a formação básica, destinada a fornecer os fundamentos científicos indispensáveis; a formação profissional geral, comum às diferentes modalidades de engenharia; e a formação profissional específica, voltada às competências próprias de cada especialidade. Ao mesmo tempo, a resolução consolidou a organização das diversas modalidades de engenharia, oferecendo flexibilidade às instituições e permitindo que novos cursos fossem criados para atender às necessidades do desenvolvimento tecnológico do país. Foi a primeira vez que falamos em engenheiros de concepção de tecnologias, de engenheiros de adaptação, e de engenheiros de execução, todos indispensáveis ao desenvolvimento brasileiro.


Poucas reformas educacionais tiveram consequências tão amplas e duradouras. Durante décadas, praticamente todas as escolas de engenharia organizaram seus currículos segundo essa concepção, formando centenas de milhares de profissionais que contribuíram para o desenvolvimento nacional.

Seu espírito inovador manifestou-se igualmente no ensino de Mecânica dos Fluidos. Convencido de que a engenharia não poderia ser ensinada apenas por meio de fórmulas e demonstrações matemáticas, desenvolveu laboratórios, equipamentos didáticos e aulas experimentais que aproximavam a teoria da realidade, despertando nos estudantes o interesse pela investigação e pela experimentação. Muitos dos equipamentos concebidos por ele tornaram-se referência para outras escolas de engenharia.


Mas talvez uma de suas iniciativas mais visionárias tenha sido a criação da Associação Brasileira de Educação em Engenharia — ABENGE. Em uma época em que pouco se discutia sobre formação de engenheiros, a entidade passou a reunir professores, pesquisadores, dirigentes universitários e profissionais em torno do aperfeiçoamento permanente do ensino. A ABENGE tornou-se, ao longo dos anos, a principal referência nacional para o debate sobre educação em engenharia, influenciando políticas públicas, diretrizes curriculares e processos de inovação pedagógica.


Também foi pioneiro na implantação dos primeiros processos de avaliação dos cursos de graduação em engenharia, antecipando em muitos anos uma preocupação que mais tarde seria incorporada às políticas nacionais de avaliação da educação superior. Para ele, qualidade não era um conceito abstrato, mas uma responsabilidade permanente das instituições de ensino.


Sua competência levou-o ainda a exercer importantes funções na administração científica brasileira. Foi Diretor-Científico da FAPESP entre 1979 e 1985, membro fundador da Academia de Ciências do Estado de São Paulo, membro da Academia Nacional de Engenharia e representante do Ministério da Educação no Conselho da Agência Espacial Brasileira, sempre defendendo a integração entre ciência, tecnologia, inovação e formação de recursos humanos.


Conheci Ruy Vieira, fui seu amigo,  e acompanhei de perto sua contribuição à educação em engenharia. Sempre admirei sua inteligência, sua capacidade de formular soluções inovadoras e, sobretudo, sua visão de futuro. Não buscava mudanças por modismo, mas porque compreendia que a engenharia evolui continuamente e que a universidade precisa acompanhar essa evolução. Foi também um homem de princípios, com um forte sentimento de amor ao próximo.


Hoje, com a partida de Ruy Carlos de Camargo Vieira, despedimo-nos de um dos principais arquitetos da moderna educação em engenharia no Brasil. Sua obra permanece viva nas diretrizes curriculares que ajudou a construir, nas instituições que criou, nos professores que inspirou e nos inúmeros engenheiros cuja formação foi, direta ou indiretamente, influenciada por suas ideias.


Há mestres que ensinam em suas salas de aula. Há outros que transformam o ensino de um país inteiro. Ruy Vieira pertenceu, sem dúvida, a esta segunda categoria.

 
 
 

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