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Viva o povo português!

  • Foto do escritor: Paulo Alcantara Gomes
    Paulo Alcantara Gomes
  • 27 de abr.
  • 7 min de leitura

Portugal é, para mim, um pais maravilhoso. Por lá  passei muitos anos de minha vida, estudando,  trabalhando e aprendendo. Também vivi algum tempo  na Itália, outro país que aprendi a amar.  

Os Portugueses são notáveis engenheiros, com grandes  contribuições prestadas à humanidade. Delas, costumo  sempre destacar a caravela, que viabilizou as grandes  navegações, e permitiu a primeira viagem ao Brasil, a  realização da viagem para às Índias, a volta ao mundo  de Fernão de Magalhães. As caravelas foram uma  inovação radical, que promoveu a mudança da história,  comparável a primeira viagem do homem à Lua. Mas  houve o Nônio, que usamos até hoje nos paquímetros,  fundamental nas medidas. Também houve o astrolábio  e, nos tempos modernos, o multibanco e muitas outras.   A poesia e a literatura portuguesas são fantásticas, e  basta citar Gil Vicente, Camões, Eça de Queirós,  Fernando Pessoa e Florbela Espanca, ou o Saramago,  para entender o que os portugueses têm de inigualável.  Outra coisa que me marcou profundamente foi o Fado.  Na época em que lá vivi, quando nasceu a Ana Paula,  minha filha mais velha, havia um grande turbilhão, pois  todos queriam e aguardavam o fim da longa ditadura  Salazaristas, que isolou aquele país do mundo, e do  progresso, por quase 50 anos, e que fez o povo  português sofrer muito. Foi um período de despedidas,  muitos emigrantes, famílias destroçadas, falta de  liberdade, tristeza e melancolia.  


O fado para mim soa como uma música de melancolia e  protesto, e também como a música dos amores mortos.  Muitas vezes fala de saudade, que, segundo alguns, é  uma palavra que só existe na nossa língua. Era o tempo  de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Luiz Cília,  José Mario Branco, Fausto, Maria Teresa Horta e vários  outros, não muitos. Hoje os tempos mudaram, mas o  fado ainda me atrai, Carlos do Carmo é meu ídolo, mas  já partiu. Antônio dos Santos é fantástico e sempre me  traz muita saudade. Não sou um emigrante e não tenho  o direito de me apropriar da nacionalidade lusitana,  mas me sinto como se fosse. 


Mas oque mais me entusiasmou foi a Engenharia Civil  portuguesa. Trabalhei, estudei e aprendi num dos mais  importantes centros de Engenharia Civil do mundo, o  LNEC. Lá convivi com os melhores engenheiros e  professores . Os portugueses são excepcionais  ‘barrageiros” , com obras mundo a fora , todas  maravilhosas . Lá aprendi muito de Teor ia de  Elasticidade, métodos numéricos, de Dinâmica de  Estruturas, de Engenharia Sísmica. Tive orientadores  extraordinários: o Arantes e Oliveira, que foi Reitor da  Universidade Técnica, o Ferry Borges, que foi  presidente do Comitê Europeu de Betão, o Velho  Manuel Rocha , pai da mecânica das rochas  (coincidência fantástica), o Abecassis, que realizou o  alargamento da Praia de Copacabana, o Artur Ravara, o  Oliveira Pedro, que me ensinou elementos finitos, o  Lobo Fialho , que me ensinou Teoria das Cascas, e eu  chamava de espantalho, que rima com Fialho, e outros  que não cito por falta de espaço. Sempre tive a sorte de  estudar e trabalhar em instituições importantes. O  LNEC foi uma dessas. Outra foi o CISM, em Údine.  Passei por diversos outros lugares, como Grenoble,  Roma, Liége. Em todos encontrei, estudei e aprendi  com notáveis engenheiros. Entretanto, nenhum desses  países me influenciou tanto como o LNEC, que sempre  chamava de Laboratório. Devo ter esquecido alguns  nomes, certamente. São as falhas da memória, normais  num velho que já vai para os 81 anos.  


Em Portugal fiz amizades fraternas que atravessam o  tempo; o Ferreira Pinto, o Manuel Gonçalves da Silva, o  Segadães Tavares, o melhor engenheiro estrutural que  conheço, o Alfredo Vaz Pinto Mendes, o Diogo, seu  irmão, o Fernando Pereira da Silva, meus alunos em  Coimbra, e o Joaquim Diniz Vieira. Os primeiros ainda  vejo com certa frequência, mas os últimos não  encontro há anos. Mas amigos são assim, nunca se  veem, mas estão juntos, pensando juntos.  

Depois, conheci o Laginha Serafim, uma personalidade  incrível, que conhecia tudo de barragens abóbada,  algarvio, um grande empresário, e, pasmem, da  esquerda radical. Ele me convidou para montar a área de estruturas do Curso de Engenharia Civil de Coimbra  pois, apesar de fundada em 1290, a Universidade de  Coimbra ainda não tinha qualquer área tecnológica nos  anos 70 do século passado, embora oferecesse  excelentes cursos de Física e Matemática. Aqui no  Brasil, a empresa do Laginha fez a barragem do Funil,  uma verdadeira obra de arte. E muitas outras obras.  Hoje o Francis, outro amigo fraterno, é o diretor da  empresa brasileira.  


Ao me convidar o Laginha me proporcionou uma  experiência única. O ano de 1974 me pegou orbitando  entre Lisboa e Coimbra, calculando e projetando  algumas obras e ensinando, em Coimbra. O Laginha me  emprestou um Fiat, que apelidei de Jesus, com a  condição de não sair de Coimbra. Às vezes me  emprestava um MGB, carro esporte conversível, que  andava numa velocidade fantástica para as estradas  portuguesas da época. Não me lembro bem (problemas  de idade), mas acho que nessa época levávamos quase  quatro horas para ir de Lisboa a Coimbra, numa estrada  mínima, sem acostamentos, perigosíssima. Com o MG  era outra coisa, além de ser sucesso certo no sexo  feminino. Hoje as estradas portuguesas são as  melhores da Europa. Às quartas jantávamos sempre  juntos, no Aeminium, no Kanimanbo, no Nicola, ou no  007.  


No 24 de abril de 1974 estava em Coimbra, como  sempre sem dormir, ouvindo música. De repente a  rádio começou a tocar, “E depois do Adeus”, do Paulo  de Carvalho. Já estava fascinado pelo Fado e então ouvi  “Grândola Vila Morena”. Era alta madrugada, quase de  manhã. Nenhuma das duas músicas pode ser chamada  de Fado, mas são lindas. A Ligia, minha primeira  esposa, que infelizmente já faleceu, tinha ido para Vila  da Feira, onde vivia toda a sua família, pessoas  maravilhosas, que me trazem muita saudade. No dia  25, quinta feira, bem cedo, me desloquei para Lisboa,  de trem, como fazia sempre, e comecei a entender que  algo diferente estava acontecendo.  


A partir daí vivi seguramente os momentos mais  emocionantes da minha vida. Já havia lido o Livro do Antônio de Espínola, “Portugal e o Futuro” e percebia  muita coisa, mas aquilo foi diferente.  


A Baixa de Lisboa estava apinhada de tanques e carros  de combate, todos parados. Vi uma senhora, daquelas  bem portuguesas, colocando um cravo no cano de uma  arma, acho que ainda um mosquetão, igual ao que eu  usava no Colégio Militar. Eu vi essa cena, que me  marcou para sempre.  Desci até o Terreiro do Paço, ou a Praça do Comércio,  subi pela Ladeira do Carmo e pela Rua Garret, depois  pela Rua Nova da Trindade, até chegar a pide, que  escrevo com letras minúsculas propositalmente, a  nefasta polícia portuguesa.  Então também vi o Salgeiro Maia, o capitão de abril,  dando ordens, compenetrado, como se já soubesse que  estava salvando um país. Lá em cima, o Marcelo  Caetano, um respeitável acadêmico, numa situação  constrangedora, em vias de ser exilado para o Brasil.  Acho que a diferença entre os extremos e a verdadeira  democracia está aí. O Marcelo foi tratado com respeito  pelos capitães de abril, coisa que não aconteceria se  estivéssemos numa situação inversa. Anos depois  conversei com ele aqui no Brasil, e com o Francisco de  Paula Leite Pinto, que havia sido Ministro da Educação.  Eram homens de uma cultura vastíssima. O Leite Pinto,  convidei para fazer umas conferências na Universidade,  pois ele havia sido governador na Agência  Internacional de Energia Atômica e sabia demais sobre  segurança nuclear. O Leite Pinto muito autoritário, me  deu até lições de elegância. Com ele aprendi muito  sobre Portugal e a Europa. Com o Marcelo, aprendi  sobre algo inusitado para mim: direito internacional.  Eram dois homens bons, e acho que se meteram nisso  por ambição. Acabaram frequentando a casa do meus  pais, e ficaram amigos.  


Vocês não imaginam o que é ver uma multidão como os  olhos brilhando, muitos em lágrimas, soldados  abraçados ao povo, um mar de felicidade. Aprendi o  que é uma democracia, o que é a liberdade, o que é a  felicidade . Aquela noite e as seguintes foram  fantásticas. A Cervejaria Nova da Trindade sempre cheia. A Portugália, lá na Almirante Reis, também  lotada. Passei por situações cômicas. A alegria se  espalhava por toda parte. . Vivi os dias em que Portugal  renasceu.  


Portugal é uma nação incrível. Já ressurgiu 4 vezes.  Nasceu em 1143, quando D. Afonso Henriques afirmou  a independência em relação a Leon e Castela; depois  em 1385, renasceu novamente, quando venceu a  Batalha de Aljubarrota. O mosteiro da Batalha ainda  está lá, lindíssimo, pertinho de Fátima, no caminho  para Coimbra. Em 1640, no dia 1º de dezembro,  libertou-se do domínio espanhol, do Rei Filipe II. Em  1834, depois da invasão das tropas de Napoleão, e com  a vitória do Liberalismo, mais uma vez ressurgiu.  Nessa, nosso D. Pedro I ( que lá era o Pedro IV) teve  papel importante.  


A penúltima vez (vocês já vão entender porque é a  penúltima), foi em 25 de abril de 1974, o dia que  marcou minha vida. Minha barba, que nasceu no dia 25  de abril, ficou e ficará para sempre, para que eu me  lembre eternamente do dia em que a democracia  venceu a escuridão e o medo.  

Os primeiros meses foram de incerteza, e muito  difíceis. Depois as coisas se acertaram. Veio a entrada  na União Europeia, e, enfim, o progresso.  


Há pouco saíram os resultados da eleição. Penso que  Portugal hoje, dia 8 de fevereiro de 2026, renasceu  mais uma vez, quando o povo português, o glorioso  povo português, disse não a Aventura e definiu com  grande firmeza, que prefere o lado Seguro da vida e da  política. Sei que vocês me entendem. Fico feliz, pela  Ana Paula, minha filha portuguesa, pelo Nuno, meu  neto, pelo Edson, meu genro e pelo João e pela  Mariana, meus filhos, e todos os netos. Afinal de  contas, a nossa casa é portuguesa, com certeza.  


Boa noite.  


 
 
 

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